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As eleições de 2026 acontecem em um cenário marcado pelo avanço da inteligência artificial, pela popularização das deepfakes e pela circulação cada vez mais rápida de conteúdos manipulados nas redes sociais. Vídeos, áudios e imagens produzidos ou alterados digitalmente podem ser utilizados para criar informações falsas, influenciar a percepção dos eleitores e testar os limites da legislação eleitoral, enquanto plataformas digitais se tornam espaços centrais de disputa política e disseminação de desinformação. O cenário também impõe novos desafios à Justiça Eleitoral, aos partidos, aos candidatos e à própria sociedade, que precisa lidar com uma realidade tecnológica que avança em velocidade maior do que a capacidade de regulamentação e fiscalização.

Em meio a esse cenário, a disputa eleitoral também passa pelo desafio de diferenciar liberdade de expressão de práticas que podem comprometer o debate público e a própria democracia. Com a circulação de conteúdos falsos em escala e a facilidade para criar materiais cada vez mais realistas, o eleitor se torna parte central desse processo, tanto na identificação de possíveis manipulações quanto na responsabilidade pelo compartilhamento de informações. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico exige respostas mais rápidas das instituições e uma atuação conjunta entre Justiça Eleitoral, plataformas digitais, partidos, candidatos e sociedade para evitar que a desinformação seja utilizada como estratégia política e comprometa a confiança nas eleições.

No 43º episódio do ExpliCA, do projeto Fala Caio, Hélio Silveira, presidente da Comissão de Defesa da Democracia e do Estado de Direito da OAB/SP, analisa os principais desafios para as eleições de 2026 e os riscos provocados pelo uso da inteligência artificial e pela influência das redes digitais na disputa política. Na conversa, ele também aborda a evolução e a importância do sistema eleitoral brasileiro, os limites da liberdade de expressão, as consequências jurídicas para quem dissemina desinformação e os desafios impostos pelas deepfakes. Hélio ainda defende o compromisso de candidatos, partidos, plataformas e da sociedade civil com a preservação da democracia e da integridade do processo eleitoral.

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Ouça o episódio completo pelo Spotify e acompanhe todas as interações no conteúdo a seguir:

Pergunta 1: Hélio, antes de entrarmos nas questões mais específicas das eleições de 2026, gostaria que você apresentasse um pouco da sua visão sobre a importância do nosso sistema eleitoral e sobre como ele se tornou um dos exemplos de processo eletivo no mundo inteiro.

Hélio Silveira (Comissão de Defesa da Democracia e do Estado de Direito da OAB/SP): Veja, Caio, o Brasil, esse território que nós chamamos de Brasil e que vem se consolidando desde 1500, desde a chegada dos portugueses, desde a invasão dos portugueses e a formação da colônia nesse território denominado Brasil, pratica eleições desde o século XVI. Desde que o primeiro povoamento é elevado à condição de vila e seguindo as organizações dos reinos, nós desenvolvemos nessas vilas um sistema eleitoral. É um sistema, claro, muito rústico, que restringia a participação da população a uma pequena elite, mas eram eleições em que se consultava, ainda que diante de um corpo eleitoral muito diminuto, os eleitores de tempos em tempos. Nós praticamos eleições, Caio, para que se tenha uma dimensão da importância disso, desde o século XVI. Então, somos um território acostumado com eleições.

 Isso faz parte da nossa vida, da nossa história e da nossa formação. A partir da Revolução de 1930 e, depois, de 1932, superando a República Velha, criou-se a Justiça Eleitoral. Entendeu-se que já não era mais possível que os políticos administrassem sozinhos o processo eleitoral e a Justiça Eleitoral, ao longo do século XX e neste início do século XXI, teve um compromisso que as pessoas nem sempre percebem, mas que foi de grande importância: o combate à fraude e o aumento do número de eleitores. Então, a partir de 1932 e 1934, você tem a adesão das mulheres como eleitoras ao nosso universo. Isso foi fundamental. Antigamente, só os homens votavam, só os maridos votavam, e as mulheres passam a votar, com pioneirismo do estado do Ceará, um dos primeiros estados em que houve participação feminina nas eleições. Mais do que isso, o combate à fraude eleitoral e a busca da verdade eleitoral são compromissos históricos da Justiça Eleitoral.

Na forma como foi desenhada, ela vem funcionando e teve um período, durante a ditadura, em que não funcionou plenamente, mas foi retomada em 1945 e 1946 e, desde então, ainda que diante de períodos autoritários, vem colaborando com a construção democrática, no combate à fraude, no aumento do eleitorado e na tentativa de garantir a lisura do processo. A partir de 1995 e 1996, desenvolveu-se no Brasil a urna eletrônica, que é uma construção nacional fundamental. Não que outros países não adotem a votação eletrônica, mas a forma como ela foi adotada no Brasil é fantástica, porque permite uma fiscalização intensa, é rápida e tem se mostrado segura ao longo desses 30 anos. 

Nós comemoramos agora 30 anos da implementação da urna eletrônica. Veja, compare com a eleição que aconteceu no Peru, compare com a eleição que aconteceu na Colômbia, compare com a eleição americana nos Estados Unidos, nas eleições que tiveram Donald Trump. Veja como nós, aqui, no final do dia ou no início da noite, já temos o resultado de quem foi o vencedor do pleito, em um ambiente que todos conseguem acompanhar e do qual todos participam. E isso acontece em eleições relativamente pacíficas. Pacíficas, ainda que com uma temperatura muito grande. É verdade que, nos últimos tempos, muito influenciado pela construção de uma rede de comunicação tecnológica, pelas plataformas e pela difusão de desinformação, os ânimos foram se acirrando e tivemos situações trágicas, como o 6 de janeiro nos Estados Unidos e o 8 de janeiro aqui no Brasil.

 São exemplos de como, ainda que você tenha uma democracia de longa tradição, como a americana, e uma democracia que vem em construção muito efetiva, como a brasileira, você pode ter situações que levam ao extremismo. Mas eu tenho muito orgulho de ser brasileiro e de ter um sistema eleitoral como o da Justiça Eleitoral brasileira. Ele carece, sem dúvida, de aperfeiçoamento, porque tudo na vida merece aperfeiçoamento, mas a Justiça Eleitoral desenvolveu um sistema ao longo desses quase 90 anos de existência que representa uma contribuição imensa para o processo democrático brasileiro.

Pergunta 2: Você já levantou um ponto importante, que é justamente essa transformação que acompanhamos nos últimos anos, de tentar minar a ideia de segurança eleitoral. Teorias da conspiração e fake news circulam em uma velocidade absurda e são muito difíceis de serem rebatidas, porque, quando uma pessoa recebe determinada informação, aquilo pode se introjetar no imaginário dela. Diante disso, quais são hoje os principais riscos que enfrentaremos nas eleições de 2026, considerando também o cenário geopolítico intenso, as pressões externas e a atuação de diferentes grupos políticos?

Hélio Silveira (Comissão de Defesa da Democracia e do Estado de Direito da OAB/SP): Eu já falava, há algum tempo, que, quando as eleições chegassem, elas seriam avassaladoras. Não haveria tempo para a gente entender tudo o que estaria acontecendo. Na verdade, já está acontecendo. Eu não tenho uma resposta fechada para você, Caio. Confesso também a minha dificuldade de compreender o que vai acontecer. O que consigo vislumbrar é a dificuldade que o mundo tem para regulamentar a questão do uso da tecnologia nas eleições.

Isso é um fenômeno que aparece na Argentina, que apareceu na Índia, no México, onde houve inclusive uma alteração constitucional, vem do Brexit, da eleição de Trump e das interferências de hackers russos em eleições pela Europa. Então, o mundo vai tentando se proteger dessas interferências e dessas influências, desse uso malicioso e dessa captura que as redes e as plataformas sofreram ao longo dos anos. As redes perceberam, e talvez a extrema direita tenha percebido antes de qualquer um, que existem formas específicas de gerar engajamento. Conseguimos identificar, por exemplo, uma pesquisa realizada na Espanha em que perfis do TikTok são criados com o uso de inteligência artificial para produzir situações de assaltos, violência ou cenas inusitadas. Isso vai gerando engajamento, seguidores, curtidas e pessoas que passam a acompanhar e interagir com esses perfis. 

Quando esses perfis alcançam a marca de 10 mil seguidores, o titular daquele perfil muda de conteúdo e começa a introduzir mensagens políticas. Então, um perfil de engajamento que começou com cenas dramáticas, situações do cotidiano e conteúdos que não têm necessariamente relação com cultura ou educação passa a dizer que determinado político está roubando, que é um bandido ou que fez alguma coisa, e vai incorporando uma camada imensa de pessoas a esse discurso. Há também levantamentos desenvolvidos por pesquisadores que mostram que, com a eleição de Trump em 2016 e com o Brexit, na época em que o Facebook, hoje Meta, estava no centro desse debate, houve um questionamento muito grande sobre as políticas de moderação. Houve compromissos para adoção de medidas de contenção e foram removidos bilhões de perfis falsos, algo em torno de três bilhões de perfis falsos que circulavam com desinformação. Mas o que temos de lá para cá é um abrandamento dessas regras de moderação. 

De alguma maneira, dentro de um dogma de liberdade de expressão, as plataformas aderiram a um discurso segundo o qual tudo seria liberdade de expressão, aquilo que o ministro Alexandre de Moraes, em uma tese defendida na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, chamou de liberdade de agressão: a liberdade de dizer o que quiser nas redes sem as consequências e sem imaginar os efeitos que isso pode produzir. Soma-se a isso a questão da inteligência artificial. Então, eu não sei dizer para você, não tenho uma resposta pronta sobre o que pode acontecer. Já vimos situações das mais variadas, mas temos um comércio muito grande, uma indústria de perfis sendo construídos e um abrandamento das regras das redes. A pergunta que precisamos fazer sempre é a seguinte: a nossa lei eleitoral e o nosso sistema eleitoral foram pensados para controlar uma propaganda de rua, uma propaganda analógica, como a lei de 1997. Nós não tivemos uma atualização normativa capaz de dar conta de todo o universo que foi sendo criado. Você cria um regramento para uma eleição e, na eleição seguinte, as coisas já migraram para outro campo. Estamos sempre perseguindo a realidade, e o ordenamento jurídico não consegue acompanhar porque temos uma legislação pensada em outros tempos e que não foi atualizada. 

As resoluções do TSE tentam dar conta e cobrir o maior número possível de situações, mas precisamos perguntar se elas serão suficientes para enfrentar esse quadro. Será que um regramento que proíbe o uso de inteligência artificial nas 72 horas que antecedem o pleito será suficiente? Esses ataques não poderão vir por meio de perfis falsos, já que não existe um controle tão efetivo das plataformas? O TSE exige que as plataformas assumam um compromisso com a democracia, mas será que elas realmente virão fazer isso? A referência estrangeira pode estar presente também na existência de plataformas que sejam lenientes com ataques ao processo democrático. Então, o Estado brasileiro deve se cercar de elementos e estruturas capazes de coibir essas ações. Veja, só para concluir, nós passamos uma semana discutindo a possibilidade ou não de Jair Bolsonaro estar, por meio de um deepfake, presente em uma convenção. A defesa dizia que era uma convenção, que o conteúdo estava rotulado e identificado como inteligência artificial e que não havia responsabilidade pela repercussão.

 Mas as convenções hoje são amplamente cobertas pela imprensa, e esse elemento do pode ou não pode, foi ou não foi, vai ou não vai, acaba gerando uma semana inteira de debate em torno do sistema. E isso acontece porque testar os limites do nosso sistema normativo também faz parte da estratégia. De alguma maneira, essa estratégia acaba ofuscando outros temas importantes. Temos a eleição, temos os rumos da economia, temos os rumos da política e uma série de situações colocadas, e estamos ali perdendo tempo com esse tipo de discussão.

A resposta do TSE, penso eu, não poderia ser lenta. Não pode receber uma representação e dizer que vai pensar. A Justiça Eleitoral precisa estar preparada, e os ministros precisam estar reunidos e convencidos de uma linha de atuação. Não pode haver muita divergência entre eles, porque, como você disse, não vai dar tempo. A eleição corre muito apertada. Se eles não estiverem convencidos sobre o que pode e o que não pode, nós vamos perder tempo. Se essa questão já estivesse resolvida, seria fim de papo e partiríamos para outro assunto. Já deveríamos ter uma posição clara sobre a circulação desses deepfakes e desse tipo de conteúdo. No entanto, os limites continuam sendo testados. A campanha do Flávio Bolsonaro testou vários tipos de conteúdo, com aviãozinho e outras situações.

Pergunta 3: Essa questão de avançar os limites parece ser justamente um dos grandes problemas. Sempre existe mais uma coisa que não esperávamos, alguém puxa a corda até o limite e, quando chega ali, dobra a aposta e estica um pouco mais. Isso acontece não apenas na Justiça Eleitoral, mas em outros pontos da sociedade. Considerando essa evolução tecnológica, desde as eleições de 2002, ainda muito concentradas na televisão, passando pela expansão das redes sociais em 2010, pela consolidação das campanhas digitais em 2014 e pelo impacto das fake news em 2018, com casos emblemáticos como a falsa informação sobre o chamado “kit gay”, como a popularização das deepfakes muda esse cenário? E como podemos ajudar a população a entender que esse não é o caminho e que precisamos nos proteger desse tipo de manipulação?

Hélio Silveira (Comissão de Defesa da Democracia e do Estado de Direito da OAB/SP): Olha, é uma pergunta difícil que você me faz, Caio. Aqui eu acho que quem tivesse essa fórmula ganharia um prêmio Nobel, porque é realmente muito difícil. Você foi longe nessa construção das redes. Eu sou mais cauteloso com essa cronologia. Acho que o processo foi mais violento porque começou para valer a partir de 2008 e 2009. As redes sociais surgiram no início dos anos 2000, em 2003, e foram se aprofundando, criando novas camadas. O que é curioso é a criação das redes sociais junto com a telefonia móvel. Em 2009, com a popularização do iPhone e de modelos semelhantes, você tem uma junção em que a notícia, a desinformação, a não notícia e a descontextualização da notícia explodem no seu celular. A todo instante você está conectado. E o Brasil é um dos países em que as pessoas passam mais tempo nas redes e consomem uma quantidade imensa de conteúdo. O ordenamento jurídico, como eu disse, tem a experiência de uma eleição e tenta regular a eleição seguinte.

Depois da experiência internacional do Brexit e da eleição de Trump em 2016, o Brasil passou a se preocupar muito com as redes sociais e criou um ordenamento para 2018, proibindo uma série de situações. 2018 foi a primeira eleição em que se admitiu, Caio, que você pudesse impulsionar uma publicação. Então se tentou criar alguns regramentos, mas a coisa escapou para uma rede de mensageria que já estava construída e na qual se difundiram conteúdos falsos, como o chamado “kit gay”, a história da mamadeira e uma série de outras situações que foram se espalhando. Ainda hoje essas redes estão ativas. Há uma pesquisa publicada recentemente pelo Cebrap que é interessantíssima porque mostra que essa rede foi muito bem estruturada e não depende necessariamente de partidos políticos. 

É uma rede, você tem, por exemplo, uma situação como aquele áudio que vazou envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, um áudio muito chocante, e, na sequência, essas redes que dão suporte ao bolsonarismo já estavam difundindo uma outra versão, dizendo que era dinheiro privado, que não era dinheiro público e que era apenas patrocínio para fazer um filme. Então, isso já está criado. Qual é o mecanismo que nós teremos para conter esse tipo de situação? Não temos. Aí você foca muito no que está visível. O que está visível são as plataformas e as redes sociais. Essas você pode controlar, pode ter controle judicial, pode fazer uma representação rápida, respeitar os períodos de defesa e exigir rotulagem quando houver uso de inteligência artificial. A legislação é rigorosa em relação ao uso de deepfakes para apoiar ou prejudicar campanhas e também em relação ao uso de pessoas falecidas. Na Índia, por exemplo, isso já foi utilizado. Mas temos situações que continuam surgindo. Estou dando exemplos de 2022 e 2024, eleições tensas, com muita desinformação circulando. 

O que será 2026, eu acho que já está um pouco anunciado: o uso intenso da inteligência artificial por um ex-presidente que está preso e que foi acusado de tentativa de golpe de Estado, mas que, ainda assim, pode insistir na veiculação de informações e desinformações para testar o limite da Justiça Eleitoral, até onde pode ir. E, quando de alguma maneira esse conteúdo é restringido, a reação é dizer que houve censura, que a Justiça Eleitoral brasileira, que o Supremo, estariam mancomunados para garantir a eleição do concorrente. Esses são os dilemas. Isso acirra a reação e alimenta a desconfiança naquela Justiça Eleitoral que eu te falei, que tem uma urna eletrônica há 30 anos e uma história de quase 100 anos combatendo fraudes e ampliando a participação dos eleitores no processo.

Pergunta 4: Qual é o limite entre a liberdade de expressão, que é garantida constitucionalmente, e a disseminação de fake news e desinformação? Em que momento uma opinião deixa de estar protegida pela liberdade de expressão e passa a representar uma ameaça à democracia?

Hélio Silveira (Comissão de Defesa da Democracia e do Estado de Direito da OAB/SP): A liberdade de expressão é absolutamente assegurada pela nossa Constituição Federal. É um princípio crítico para a democracia, a liberdade que eu tenho de exprimir a minha opinião, e isso é assegurado aos meios de comunicação e ao funcionamento da própria democracia. Eu preciso ter, inclusive, uma atitude de tolerância com a opinião alheia, com a opinião do outro, até para que eu possa reforçar ou revisar a convicção que tenho.

Preciso ter um ambiente de diálogo. A liberdade de expressão pressupõe um ambiente de diálogo, um ambiente fraterno, um ambiente de troca de ideias. Nem sempre precisa ser fraterno, porque pode ser um ambiente em que se discuta gravemente determinada situação. Posso ter um debate acalorado, e isso faz parte do processo democrático. O que não posso ter é discurso de ódio. Não posso dizer que vou metralhar determinado grupo, que vou perseguir a comunidade LGBTQIA+, que acho que um quilombola se pesa por arrobas. Tudo isso é intolerável em um regime democrático, em um regime que precisa ser participativo, diverso e amplo, e que tem que corrigir suas mazelas. 

Nós temos na Constituição também um compromisso de combate às desigualdades sociais, econômicas e regionais. Portanto, o texto constitucional é harmônico e pressupõe um certo respeito. Quando fala em liberdade de expressão, ele veda o anonimato, veda a agressão e não admite o discurso de ódio. O ódio que nós temos que ter é o ódio à ditadura, como já foi dito na promulgação da Constituição. A partir da desinformação, criou-se todo um amplo glossário de situações: fake news, informação falsa, informação descontextualizada. E essas situações são combatidas pela Justiça Eleitoral e pelo Direito como um todo. 

Mas é um sistema de contenção. Parte muito, Caio, da nossa capacidade de educar a população para que as pessoas tenham elementos que permitam fazer o discernimento entre o que é certo e o que é errado. Por isso, são fundamentais veículos como o seu, as instituições da sociedade civil, a OAB, a Associação Brasileira de Imprensa e as categorias profissionais. Os meios de comunicação são fundamentais na formação dessa cultura. Eu, como advogado que atua muito com Direito Eleitoral, vejo de forma muito positiva a propaganda eleitoral nesses períodos. O Brasil, evidentemente, tem uma dificuldade de formação política muito grande. Somos, lamentavelmente, pela situação econômica e pela desigualdade, um país muito desinformável, e as pessoas têm milhares de afazeres no seu dia. Imagine uma mulher pobre, preta, que mora em uma periferia, que precisa se deslocar quatro ou cinco horas de transporte para chegar ao trabalho, depois fazer o mesmo percurso de volta, que tem uma família para cuidar e uma série de outras situações. Em que momento ela vai se informar? Exigir uma atitude de heroísmo talvez seja algo que as camadas médias da sociedade não tenham sequer condições de compreender. 

A propaganda eleitoral tem o propósito de provocar as pessoas a fazerem uma reflexão sobre a sociedade. É preciso que haja compromisso dos políticos e dos partidos políticos com o combate à desinformação. Se não houver esse compromisso, a sociedade civil precisa se levantar e reagir. Por isso, na OAB, temos essa grande preocupação de promover debates e atividades que possam dizer que é preciso que as plataformas assumam compromisso com a democracia, que os candidatos assumam compromisso com a democracia e que os partidos políticos tenham compromisso com a democracia. Porque, sem democracia, não conseguimos evoluir. E aí vamos chegar àquilo que você colocou: disputa de terras, ambiente de conflito, desagregação social e guerra civil. Isso nós não queremos.

Pergunta 5: Nós costumamos falar muito sobre as consequências jurídicas da desinformação para políticos, como perda de candidatura, multas e redução do tempo de propaganda eleitoral. Mas quais são as consequências para o cidadão comum que compartilha fake news de forma recorrente, em sequência e em grande escala?

Hélio Silveira (Comissão de Defesa da Democracia e do Estado de Direito da OAB/SP): Existe essa consequência e é importante também combater o discurso de que a Justiça Eleitoral, ao fiscalizar e combater a desinformação, estaria praticando censura. Não é censura. Se determinada conduta é crime ou está vedada pela lei, a apuração dessa conduta não é censura. Se alguém veicula desinformação ou ofende a honra de outra pessoa, dizendo que alguém é ladrão, que roubou ou que matou, trazendo uma informação falsa, isso pode, sim, ter punição.

A punição vai depender muito da gravidade da conduta, do dolo, da intenção e da repercussão social que ela teve. Pode haver multa e consequências mais gravosas, como eventualmente inelegibilidade, quando uma desinformação é causada de forma a produzir dano ao processo eleitoral ou quando é uma desinformação contra a Justiça Eleitoral e contra o sistema de votação. A pessoa pode ter consequências inclusive penais, mas será necessário apurar a gravidade da conduta daquele que difundiu o conteúdo. Algumas vezes, a pessoa pode ter compartilhado algo de maneira desavisada. 

Se você compartilha, por exemplo, uma pesquisa que não foi registrada ou que não apresenta todos os dados necessários, pode sofrer uma multa pesada. Se alguém fizer uma denúncia, você pode ter uma consequência. O mesmo vale para a boca de urna. Muitas pessoas, na véspera ou no dia da eleição, querem fazer campanha de alguma maneira e podem ser flagradas fazendo propaganda em período vedado. Existe, portanto, uma responsabilidade pela difusão em escala de desinformação, mas é preciso apurar a gravidade da conduta. Não é possível tratar da mesma maneira aquele que compartilhou algo inadvertidamente e aquele que deliberadamente construiu ou difundiu uma mentira com a intenção de causar um dano ao processo eleitoral.

Pergunta 6: Gostaria que você falasse também sobre a urna eletrônica. Estamos diante de uma tecnologia de extrema segurança, que já passou por diversos processos de comprovação de sua idoneidade e que tem como uma de suas características o fato de não estar conectada à internet. Para muitas pessoas, parece contraditório pensar em uma tecnologia avançada que não esteja conectada à internet. Como funciona essa segurança e quais são os mecanismos que garantem a confiabilidade da urna eletrônica?

Hélio Silveira (Comissão de Defesa da Democracia e do Estado de Direito da OAB/SP): Veja, nós imaginamos a internet como uma coisa etérea, algo que vem pelo ar, como o Wi-Fi. Mas não é isso. A internet tem cabos submarinos, data centers e uma estrutura física muito grande que conecta você a mim e conecta o mundo. É uma rede efetiva de cabos, tubulações e toda uma infraestrutura. A Justiça Eleitoral funciona de maneira semelhante, só que com uma rede própria. É uma rede que não está conectada a essa grande rede mundial de computadores. É uma outra rede que faz a conexão e a transmissão dos dados.

Nós conseguimos desenvolver uma tecnologia nesse nível. Muitos reclamam dizendo que não existe voto impresso e que não sabem se podem ter segurança de que o voto foi realmente registrado. Mas isso é absolutamente necessário? Os resultados são auditáveis. Primeiro, tivemos alternância de poder durante esses 30 anos. Foram eleitas pessoas das mais variadas ideologias, de Fernando Henrique Cardoso a Paulo Maluf, Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Lula. Então, você tem uma alternância muito grande de poder e, durante todo esse período, não houve nenhuma situação comprovada que pudesse demonstrar que determinado voto não foi contado ou que o resultado apresentado fosse diferente daquele que deveria ter sido e mais: todos os dados, ao contrário do que aconteceu na Venezuela e em outros lugares, são auditados. Existe a possibilidade de auditoria, há testes com hackers tentando invadir a urna, existem as cerimônias de lacração e a participação de várias entidades.

O sistema foi construído para permitir fiscalização e auditoria, e isso é fundamental para garantir a confiança no processo eleitoral. A urna eletrônica, portanto, não deve ser compreendida apenas como uma máquina que recebe o voto, mas como parte de um sistema muito mais amplo de segurança, fiscalização e auditoria. Ao longo de três décadas, esse sistema demonstrou capacidade de realizar eleições rápidas, com alternância de poder e com mecanismos que permitem acompanhar e verificar o processo. Por isso, quando falamos da segurança da urna, precisamos olhar para todo o conjunto de procedimentos que existe antes, durante e depois da votação. É essa combinação entre tecnologia, fiscalização, auditoria e atuação da Justiça Eleitoral que sustenta a confiabilidade do processo.

Veja o vídeo disponível no perfil do Fala Caio, no Instagram, sobre o assunto:

FONTE/CRÉDITOS: Caio Andrade - Fala Caio