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A comunicação ocupa um papel central no processo eleitoral e pode influenciar diretamente a forma como o público conhece candidatos, propostas e diferentes forças políticas. Em um cenário marcado pela polarização, pela fragmentação das fontes de informação e pelo crescimento das redes sociais, o eleitor passou a lidar com diferentes filtros para interpretar a disputa. Ao mesmo tempo em que a televisão ainda exerce forte influência sobre a cobertura eleitoral, as plataformas digitais ampliaram a circulação de conteúdos, cortes, memes e informações fora do contexto, criando novos desafios para a formação de uma percepção mais ampla sobre os candidatos. Nesse cenário, regras para participação em debates, mudanças na distribuição de conteúdos pelas plataformas e o poder econômico para impulsionar publicações também podem afetar o equilíbrio da disputa e as oportunidades de diferentes candidaturas.

Mais do que informar sobre a disputa eleitoral, os diferentes meios de comunicação também participam da construção da percepção do público sobre o cenário político. A seleção de quem participa de um debate, o destaque dado a determinada fala, o recorte de uma declaração ou a viralização de um meme podem contribuir para definir quais candidatos ganham visibilidade e como suas imagens são compreendidas pelo eleitor. Com a proximidade das eleições de 2026, essa dinâmica se torna ainda mais complexa diante da convivência entre televisão, imprensa tradicional, redes sociais e aplicativos de mensagens, em um ambiente no qual informação, opinião, entretenimento e desinformação circulam simultaneamente.

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No 47º episódio do ExpliCA, do projeto Fala Caio, Vanessa Marques, pesquisadora do grupo Informações Públicas e Eleições do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL/UnB) e especialista em Comunicação Política, analisa o papel da comunicação nas eleições de 2026 e os impactos das mudanças no ambiente digital sobre a disputa. Na conversa, ela aborda a importância dos debates presidenciais, os efeitos dos cortes de entrevistas e debates na percepção do eleitor, a influência dos algoritmos, o papel dos memes e os riscos da desinformação. Vanessa também discute como televisão, redes sociais e poder econômico podem interferir nas oportunidades dos candidatos e destaca a importância da representatividade de mulheres, pessoas negras e outros grupos sociais no processo político.

Ouça o episódio completo pelo Spotify e acompanhe todas as interações no conteúdo a seguir:

Pergunta 1: A gente chega a uma eleição marcada por uma polarização muito forte e, ao mesmo tempo, por muitas dúvidas do eleitor. A comunicação tem um papel fundamental nesse processo, mas existe também o filtro jornalístico, principalmente dos grandes veículos de televisão, que define o que chega ou não ao público. Agora, com as redes sociais, esse processo ficou mais descentralizado, mas também surgiram novos problemas. Diante desse cenário, qual é a sua visão sobre o momento eleitoral de 2026 e qual é a importância da comunicação nesse processo?

Vanessa Marques (IPOL/UnB): Pois é, são muitas ferramentas, muitos elementos, muitas situações dentro de uma disputa só. Essa eleição de 2026 é emblemática por vários motivos e, entre eles, está a questão do TSE moderando, em certa medida, a distribuição de conteúdo no ambiente digital. Eu queria começar por isso porque é um ponto extremamente relevante nesse processo. A primeira coisa é que a ideia do TSE é muito boa no sentido de impedir que o algoritmo das redes sociais faça indicação de conteúdos, ou seja, influencie o usuário daquela plataforma a partir do que o algoritmo entende que ele deve consumir.

Contudo, apesar de ser uma boa iniciativa, isso está impactando absurdamente as contas políticas por vários motivos. Na minha opinião, ela acaba adaptando e desequilibrando muito mais a disputa do que acontecia antes, com as regras antigas. Por quê? Quem não tinha audiência agora não consegue comunicar. Esse é um grande ponto. Não consegue ser visto por alguém fora daquela bolha em que está inserido, principalmente pelo número de seguidores no Facebook e no Instagram. Um segundo elemento é que isso vai obrigar os candidatos a gastar muitos recursos na Meta, porque aí você consegue, de certa forma, sair dessa limitação: você vai pagar para que outras pessoas vejam o seu conteúdo.

 O candidato que está começando, que não tem recursos, não vai ter como entrar nessa disputa. Então, isso é muito complicado. E em plataformas como X e TikTok, o problema ainda se agrava, porque a pessoa precisa ir àquela conta, naquela aba de conteúdos dos candidatos que ela segue. Se ela não for ali e ficar apenas na outra aba, em que são indicados os conteúdos para ela, não vai ver determinado candidato. Então isso impactou diretamente as candidaturas, principalmente aquelas candidaturas mais pobres, porque têm menos influência do poder econômico para usar essas plataformas. Antes, elas ajudavam a impedir parte desse desequilíbrio, porque era um jogo em que qualquer candidato podia jogar, uma plataforma barata, praticamente sem custo para quem estava naquele ambiente.

Agora já não vai ser mais assim. Então esse é um ponto primordial dessa disputa: 2026 vai ser muito mais difícil para candidaturas de gente que está começando na política, candidatos com menos recursos financeiros, com partidos pequenos e com pouca influência no ambiente digital. Por outro lado, temos a televisão, que também faz, de certa forma, uma mediação de quem entra e quem sai. Se você tem, de repente, um candidato que resolve entrar na disputa para fazer um posicionamento mais duro contra os candidatos que estão no início da pesquisa, ele também não vai ter espaço, porque existem várias regras para que possa participar dos debates. Então é uma forma muito complexa. 

Eu sei que o TSE está buscando, de todas as formas, impedir que as redes sociais influenciem a decisão do eleitor, mas ainda vamos precisar repensar muito essa forma de atuação, porque os candidatos foram surpreendidos, de certa maneira, por uma ação que é muito complexa. Por exemplo, um candidato que declarou determinada conta viu a conta dele praticamente paralisar, porque as redes sociais precisam bloquear aquela conta para que ela não seja indicada aos seguidores fora daquela plataforma. Então é um jogo complexo, e isso vai impactar a eleição de muita gente. E é uma pena para a democracia, porque todos deveriam competir pelo menos em condições muito parecidas.

Pergunta 2: Os debates presidenciais continuam sendo uma das principais ferramentas para que o eleitor conheça os candidatos, mas estamos vendo candidatos que estão evitando esses espaços. Lula, por exemplo, não participou dos primeiros debates, e Flávio Bolsonaro também anunciou que não participaria. Ao mesmo tempo, quando um candidato não está presente, ele continua sendo assunto. O primeiro debate da Band mostrou isso. Diante desse cenário, qual é a importância dos debates hoje? Eles ainda cumprem o papel que cumpriam décadas atrás?

Vanessa Marques (IPOL/UnB): São várias questões que é importante pontuar separadamente. Quando você fala que o Lula não foi ao debate e, por consequência, o Flávio também não, é um cenário complexo se a gente analisar a percepção do eleitor, independentemente de qual tenha sido o motivo pelo qual ele não foi, porque isso também são especulações. O fato é que ele não foi. Mas imagina só a gente colocar quatro candidatos de direita e um candidato de esquerda.

Essa percepção para o eleitor já é um fato negativo para o candidato. Então, mesmo que ele se saísse muito bem, mesmo que ele nem fosse alvo dos quatro candidatos, o que obviamente seria, ainda assim seria muito ruim para o candidato ser o único de esquerda. Isso provocaria uma certa incoerência na percepção. Você vai dizer que está em um país democrático, em que várias forças políticas podem atuar, mas a gente está diante de um debate entre quatro candidatos que se declaram de direita e apenas um de esquerda ou centro-esquerda.

 Isso também é algo a se debater, porque isso também manda uma mensagem. Então tenho a impressão de que a campanha do Lula também observou isso. A segunda coisa é que, quando a gente fala em debate, existem dois momentos decisivos em qualquer campanha eleitoral. Eu digo que é quando, de verdade, a campanha começa: o dia em que começa o programa eleitoral e o dia em que começam os debates. Esses dois momentos são decisivos porque é quando a população começa o processo de querer ver o que está acontecendo. Por quê? Porque começa a repercutir.

Alguém vai ao supermercado e fala: “Nossa, você viu o que fulano falou ontem no programa eleitoral?”. Ou: “Você viu o que fulano disse no debate?”. Então esse assunto, em alguns momentos, é muito mais de quem atua no mercado político, de pessoas que estão nesse jogo, do que da população. O eleitor mesmo está procurando cuidar da vida dele, pagar as contas, trabalhar, viver normalmente. Mas quando esses dois elementos entram na vida do eleitor, aí ele começa a se preocupar e a querer saber quem está falando o quê. No caso da televisão, especificamente dos programas eleitorais, eles sempre impactaram muito. Quem não se lembra, ou quem não for dessa época, vale a pena estudar a eleição de 1989, a disputa entre Collor e Lula. A própria Globo já pediu desculpas oficialmente sobre esse assunto. 

O debate entre os dois candidatos teve recortes que enquadraram a percepção do eleitor. A partir do momento em que você faz um recorte e não apresenta todo o debate, você enquadra aquela pessoa e faz o público analisar determinado elemento. E isso interfere na percepção da opinião pública. Então a opinião pública pode mudar, como se acredita que mudou, a forma como vê determinado candidato dependendo do enquadramento que fazemos sobre a fala e o comportamento dele. No debate eleitoral, quando o eleitor assiste a todo o programa, ele observa como aquele candidato se saiu questionando os entrevistadores, como debateu com os adversários, as propostas que apresentou e, principalmente, como se comportou. Todos esses elementos ajudam a construir a percepção de quem, depois do debate, a imprensa vai dizer que ganhou ou quem saiu maior do que entrou. Por isso, porque tudo vai depender desses elementos para criar uma opinião sobre determinado candidato.

Pergunta 3: E existe ainda uma questão importante: candidatos com menos recursos e menos tempo de televisão dependem muito dos debates. Ao mesmo tempo, hoje os debates são recortados e redistribuídos pelas redes sociais. Como essa dinâmica dos cortes interfere na percepção do eleitor?

Vanessa Marques (IPOL/UnB): Candidatos com poucos recursos e pouco tempo de televisão também dependem dos debates para poder falar com a população, porque precisam desse espaço, que é mais plural e de acesso mais amplo. Se não têm um debate, vão ter mais dificuldade de levar suas ideias para a população, inclusive ideias que podem ser totalmente contraditórias ao que a maior parte das pessoas está defendendo. Outro elemento é que hoje os debates políticos não ficam apenas naquele espaço: eles são replicados no ambiente digital. E aí são replicados tanto pela imprensa, que faz os seus enquadramentos e recortes, podendo influenciar de forma positiva ou negativa a opinião pública, quanto pelos próprios candidatos, que fazem o enquadramento deles e também distribuem esses conteúdos. Então temos dois enquadramentos, e isso vai formando a percepção do eleitor.

Um bom exemplo foi o que aconteceu na eleição de 2022 com Lula e Bolsonaro. Quem ainda não se lembra de como girou muito na internet a história de que o Lula era contra o MEI? Em determinado momento do debate, Lula disse: “MEI não é trabalhador”, porque estava se referindo ao trabalhador que tinha carteira assinada e, por isso, direitos trabalhistas reconhecidos naquele tipo de registro. Se você olhar todo o contexto da fala, o debate inteiro, a fala completa, ele não disse que MEI não era trabalhador. Ele apenas estava se referindo, naquele momento, aos trabalhadores com carteira assinada. Mas o recorte ficou em “MEI não é trabalhador”. E aí quem era MEI falou: “Como é que eu vou votar em um presidente que disse que eu não sou trabalhador?”. E a vida dessas pessoas não é moleza. 

Quem é MEI sabe das limitações e dos problemas que enfrenta. Mas foi um recorte. Por que isso acontece? Também porque os debates duram muito e são realizados em horários muito tarde. Imagina que a maior parte da população acorda muito cedo, porque ainda temos uma mobilidade muito ruim neste país. A pessoa acorda cedo para se deslocar até o trabalho. Se ela fica até 10, 11 horas, meia-noite, uma hora da manhã vendo um debate político, o que ela vai ver no dia seguinte? Vai ver a repercussão no Jornal Nacional, no Jornal Hoje, em qualquer outro jornal, e vai ver as redes sociais. Dependendo da idade desse eleitor, ele pode ficar apenas com a percepção das redes. E às vezes são duas percepções totalmente distintas: uma que saiu na imprensa tradicional e outra que saiu no ambiente digital. Mas são essas percepções que vão formar a opinião do eleitor. 

Então é tudo muito complexo, e o eleitor, de certa forma, pode ser induzido por algo que não é verdadeiro ou que não está dentro daquele contexto. É o caso, por exemplo, dessa fala do atual presidente da República e de tantas outras em que ele fazia uma fala mais longa, com um raciocínio mais longo, mas, em um corte, ela dava uma percepção negativa para aquela fala. Isso é muito perigoso para a democracia e para o poder de decisão do eleitor. E para fechar, eu queria lembrar de um episódio que aconteceu não no Brasil, mas que é emblemático: o Brexit. O Reino Unido fazia parte da União Europeia e houve um plebiscito para decidir se deveria ou não sair. Houve tanta notícia, tanta fake news, tanta desinformação, tantos vídeos e conteúdos na internet pressionando o inglês a acreditar que seria um prejuízo permanecer na União Europeia, que o plebiscito acabou aprovando a saída. Posteriormente, observou-se que isso seria muito ruim para a economia britânica, porque o país dependia daquele comércio.

 Mas a decisão estava tomada, e eles sofrem consequências econômicas até hoje. Foi uma decisão influenciada por enquadramento, desinformação e fake news. E a culpa é do eleitor? Eu não acho. Acho que é do ambiente em que ele foi inserido e no qual consumiu aquela notícia. Além do ambiente digital, também houve influência de setores da mídia que sucumbiram aos interesses de quem queria que o Reino Unido saísse da União Europeia. Então vemos o poder tanto do ambiente digital quanto da imprensa de mudar a forma como o eleitor enxerga uma questão. Isso aconteceu na eleição de Dilma e Aécio, aconteceu na eleição de Bolsonaro e Haddad, aconteceu na eleição de Lula e Bolsonaro. Um exemplo bem recente é a questão do PIX. Até hoje, no Brasil, tem gente que acha que o PIX não é seguro porque o governo estaria podendo taxar as pessoas por meio dele. Por mais que o governo explique, isso não é mais explicável, porque não há mais como desmentir uma percepção construída a partir de um enquadramento totalmente equivocado da realidade.

Pergunta 4: A gente vive hoje em uma cultura de cortes, em que assuntos extremamente complexos precisam caber em poucos segundos. Ao mesmo tempo, existe uma geração que cresceu consumindo conteúdos cada vez mais rápidos. Como esse fenômeno tem afetado a comunicação política e, principalmente, a chegada de novos candidatos às redes sociais?

Vanessa Marques (IPOL/UnB): Nós temos dois momentos sociais que são importantes. O primeiro é que a população está cansada. A atenção está sendo disputada a todo momento e, com esse excesso de informação, o cansaço emocional do cérebro é tão grande que as pessoas começaram a filtrar o que recebem. E vem outro fenômeno: as redes sociais não foram feitas para fazer com que você entenda o mundo, veja a variedade de debates ou tenha contato com diferentes perspectivas.

Elas foram construídas com algoritmos programados para reforçar as suas crenças e o seu pertencimento, aquilo em que você já acredita. Então elas não permitem, necessariamente, que você veja várias opiniões distintas da sua e possa formar uma visão mais ampla. Uma pessoa que é eleitora do Bolsonaro, por exemplo, quando entra nas redes sociais, tende a receber conteúdos negativos sobre o seu adversário, que aqui podemos colocar como Lula, e conteúdos positivos sobre Bolsonaro. Ela não vai receber necessariamente algo positivo sobre o adversário, porque as redes sabem que ela tem determinada percepção e determinada visão de mundo e vão entregar aquela visão de mundo para ela. E por que fazem isso? 

Porque essas plataformas são empresas que buscam lucro. Se elas buscam lucro, querem que você permaneça mais tempo ali, consumindo informações, porque depois podem transformar os seus dados e o seu comportamento em valor para grandes empresas e também para grandes grupos políticos, que podem direcionar mais informações para você. Então, a partir dessa lógica, um bolsonarista tende a receber conteúdo negativo do Lula e positivo do Bolsonaro, e no espectro contrário acontece a mesma coisa. O eleitor, com esse tipo de modelo, não constrói necessariamente uma visão própria sobre o que está acontecendo a partir dos fatos organizados; ele recebe uma realidade filtrada. 

Antes, a gente vivia sob a lente da mídia. A mídia fazia o filtro dela e nós consumíamos esse filtro. Agora, a mesma coisa acontece com as redes sociais. Por mais que boa parte dos jornalistas ainda tenha aquela visão de que devemos apenas noticiar os fatos e não reproduzir nossa opinião, a verdade é que os grandes veículos também têm os seus filtros. Existe a questão de patrocinadores, de grandes aliados dos veículos, de proprietários dos próprios jornais. Então existem interesses que também interferem naquilo que é publicado. E os cortes, na minha opinião, são muito perigosos porque jogam para o eleitor apenas um recorte da realidade, como aconteceu com a questão do MEI. Naquela oportunidade, a campanha de Jair Bolsonaro explorou fortemente o recorte nas redes sociais, enquanto Lula tentou rebater mostrando o vídeo completo, vários cards e lembrando, inclusive, quem havia criado o MEI em seus governos. Mas aquilo impactou a eleição e impactou o processo eleitoral. Às vezes o impacto não é suficiente para alterar o jogo e impedir que aquela pessoa ganhe, mas pode impactar, como aconteceu em 1989, quando a própria Globo reconheceu que influenciou a decisão do eleitor. Então as questões envolvendo as redes são muito complexas. Primeiro, porque colocam os candidatos em desequilíbrio de oportunidades.

 Imagine que hoje quem tem 100 mil seguidores tem muito mais chance de emplacar um conteúdo do que quem tem 10 mil. Isso já desequilibra o debate e as chances de dois candidatos falarem para o mesmo público. Eu acho que deveria haver mais responsabilidade das plataformas e da Justiça Eleitoral na retirada, especialmente, da desinformação e das fake news. Mas existe um problema: eu comecei a trabalhar com política e comunicação política quando não havia internet e, enquanto nós pensamos o digital de uma forma analógica, as plataformas estão três ou quatro passos à frente.

Então, por mais que o TSE busque moderar essas questões, elas já estão lá na frente. Essa própria decisão do TSE não pensou em todas as consequências. Fora que existem candidatos que podem simplesmente optar por não declarar determinada conta. Como fazer esse monitoramento? Como ter certeza de que um candidato disse que aquela conta no TikTok ou no Instagram é dele? Tudo isso, infelizmente, não coloca todos os candidatos em igualdade de disputa e faz com que os candidatos antigos, as pessoas que já estão há muitos anos na política, consigam continuar sendo reeleitos. Além do poder econômico, eles têm maior poder de influência porque passaram quatro anos em um cargo eletivo, o que ajudou essas pessoas a aparecer mais e a construir melhor suas redes de comunicação. E isso, obviamente, influencia o eleitor.

Pergunta 5: Além dos cortes, existe um outro fenômeno muito forte nas redes: os memes. Um debate acaba e, em poucos minutos, já existem memes sobre candidatos, falas e situações que aconteceram. Eles podem humanizar um candidato, ajudá-lo a ganhar visibilidade ou até transformar uma situação negativa em algo positivo. Até que ponto os memes podem interferir na corrida eleitoral?

Vanessa Marques (IPOL/UnB): Os memes são uma forma de comunicação extraordinária. O brasileiro é muito criativo, porque eu não sei como é que as pessoas têm tempo para tanta criatividade, mas o fato é que têm. Acaba um debate ou qualquer participação de um político em um ano eleitoral e, quando você abre o celular, já tem um monte de coisas engraçadas acontecendo. Alguns candidatos se beneficiam bastante disso. Tivemos o padre que era padre de festa junina, e a gente se divertiu muito com os embates dele na eleição passada.

Tivemos também, na eleição para a Prefeitura de São Paulo, o Marçal, que desequilibrou bastante o debate e gerou vários memes. E agora temos o Datena como candidato, que usa uma cadeira como símbolo. Ou seja, ele próprio pegou o meme e incorporou à comunicação política, e eu acho que foi uma estratégia acertada — não a cadeirada, evidentemente, mas o símbolo da cadeira. Isso mostra como essa forma de comunicação é importante, porque os memes entram muito mais facilmente na absorção do conteúdo do que a gente imagina.

 Às vezes, aquele meme que parece apenas uma coisinha engraçada, uma coisa divertida, também transmite uma mensagem importantíssima e pode influenciar a decisão do eleitor. O eleitor pode votar porque sente que determinada pessoa foi humilhada, porque sente que aquela pessoa está sendo menosprezada ou porque percebe uma violência muito forte dos outros candidatos. São vários elementos que formam a percepção do eleitor. Os memes invadem esse outro campo da comunicação porque, mesmo que aquela pessoa esteja alheia ao processo eleitoral e não queira saber de política, um meme é sempre mais fácil de ser absorvido. Esse é um elemento muito importante porque traz aquele sorriso, aquela leveza, aquela espontaneidade. Não parece que foi um produto produzido ali com uma intenção específica. Então, nesse ponto, é uma ferramenta muito importante. Só não pode, não deve, não deveria ser usada para desinformação e fake news, porque isso é ruim para o processo eleitoral. Mas os memes são elementos extraordinários.

Ontem mesmo, por exemplo, o candidato Renan Santos falou sobre a questão de uma bomba atômica e sobre o Brasil avançar na energia atômica. Hoje você abre a internet e está cheio de memes dele com bomba atômica e várias coisas muito engraçadas. Mas Renan, por exemplo, é um cara muito esperto nas redes sociais. Ele fez aquela fala não foi à toa, porque aquilo faz com que pessoas que não o conhecem parem para entender quem ele é. Ele consegue chamar a atenção. Tudo bem que ele acredita naquilo, mas também usa essa contraintuição, essa coisa mais esdrúxula, por assim dizer, que está fora do debate normal dos demais candidatos, para se destacar. Então é um elemento muito poderoso.

Pergunta 6: Para finalizar, queria que você fizesse uma reflexão sobre esse período eleitoral e também sobre uma questão que considero fundamental: representatividade. Pela primeira vez em algumas décadas, não temos mulheres candidatas à Presidência ou à Vice-Presidência, e também existe uma baixa representação de pessoas negras, LGBTQIA+ e de outros grupos sociais. Por que essa diversidade é tão importante para a democracia e para o processo eleitoral?

Vanessa Marques (IPOL/UnB): A gente agora começa a aquecer tudo com a entrada forte do programa eleitoral. Isso acaba fazendo um novo incremento de energia nesse tema. Ele volta a ser um assunto de debate tanto na imprensa quanto nas redes sociais, então acredito que isso vai ser ainda mais intenso nas próximas semanas e nos próximos meses. À medida que o dia da eleição se aproxima, mais o eleitor vai estar atento e mais coisas sobre a eleição vão começar a chegar até ele. Por isso é tão importante que o eleitor faça uma busca pela informação antes de acreditar no que recebeu e dê uma olhada para saber se aquela informação é verdadeira.

E não estamos falando apenas de Facebook, Instagram e TikTok. O WhatsApp também é uma rede social e também é um espaço em que a desinformação e as fake news circulam de forma muito incontrolável. Então o eleitor, pelo bem da sociedade, pelo bem da democracia e pelo seu próprio bem, precisa entender que as decisões políticas afetam diretamente a nossa vida. A decisão que você tomar em 2026 vai influenciar a forma como uma escola será construída, como a manutenção daquele ambiente será feita, como teremos mais ou menos segurança, uma economia mais forte ou mais fraca e custos mais baixos ou mais altos dos produtos de que precisamos. 

Tudo isso influencia. Eu sempre digo que tudo é política. Todas as decisões da nossa vida envolvem e passam pela política: o imposto que você paga, o imposto que deixa de pagar, o tratamento de saúde que seu filho tem à disposição ou que ele não tem, tudo isso é política. E é muito triste ver que, em um país onde a maioria da população é negra, ainda vemos majoritariamente pessoas brancas como candidatas à Presidência. E mesmo no Parlamento, que é onde dizemos que existe a representação da população, temos poucas mulheres, poucos homens negros, poucas mulheres negras, poucas pessoas LGBTQIA+ e poucas pessoas trans, por exemplo. 

É muito triste que ainda sejamos uma sociedade em que quem comanda as decisões são, em grande medida, homens brancos de meia-idade. Por que é importante ter negros, mulheres, pessoas com diferentes formas e visões de mundo, pessoas com deficiência, autistas, pessoas com limitações de fala ou de audição e tantas outras formas de representação? Porque, quando acontece um debate, a gente não tem representatividade. É muito diferente um homem votar sobre coisas que afetam a vida das mulheres se ele não é uma mulher. É muito diferente uma mulher branca, como eu, votar sobre algo que interfere na vida de uma mulher negra, porque eu não sofro os mesmos preconceitos que ela. 

Eu sempre digo que a minha vida é muito mais fácil porque, mesmo sendo mulher, ainda sou uma mulher branca e hétero. Então estou em uma posição muito diferente de muitas outras mulheres. Nós vivemos uma avalanche de racismo, feminicídio e não apenas mortes de mulheres, mas agressões verbais, físicas e sexuais. O Brasil ainda é um dos países que mais registra estupros de crianças e mulheres. Se não fazemos uma eleição de pessoas que nos representem, vamos ter muita dificuldade de resolver essas questões. É diferente. Claro que existem homens que fazem muito bem esse debate, mas eles nunca vão entender completamente o que é ser uma mulher. 

Uma pessoa hétero nunca vai entender o preconceito que uma pessoa LGBTQIA+ enfrenta. Uma mulher branca nunca vai entender como é ser uma mulher negra periférica, por exemplo, que representa uma parcela enorme das mulheres brasileiras: mães solo, periféricas, negras, que enfrentam preconceito, sobrecarga e salários baixos. É uma desigualdade que afeta tudo. E eu fico bastante triste em ver que nós, no Brasil, ainda não temos um projeto pedagógico voltado para essas questões. Eu sou professora e tenho muito orgulho de ser professora, tanto no ensino básico e infantil quanto no meio acadêmico, e fico muito triste porque não vejo o Brasil investindo suficientemente na formação da juventude para essas questões. 

A gente não trata da importância do letramento racial, não debate que a orientação sexual de uma pessoa não define quem ela é, e também não pode deixar de falar sobre intolerância religiosa. Somos um Brasil com tantas pessoas descendentes de quilombolas e indígenas, mas temos pouquíssima dessa representatividade no Congresso Nacional. E, nos 15 anos em que estou ali, vejo isso cada vez pior, porque as pessoas também estão cansadas de enfrentar esse jogo. Então imagina uma mulher negra periférica querendo se arriscar na política: ela vai sofrer preconceito antes, durante e depois. Isso acaba inviabilizando a vontade dela de participar do processo. Por isso, a decisão dos candidatos de todos os espectros políticos de escolher homens brancos de meia-idade como vices é muito ruim.

 Nós temos excelentes mulheres que poderiam ocupar esse papel. Eu participo de um grupo chamado Quero Você Eleita (Conheça o projeto no Instagram), que ajuda e contribui para que mulheres passem por esse processo eleitoral, sempre com participação de mulheres negras e mulheres trans. E uma das coisas que vemos muito é que os homens, até pela cota financeira que existe nos partidos, querem mulheres candidatas, mas não querem mulheres eleitas. É muito diferente. Eles querem que a gente vá lá, se inscreva, passe pelo processo, vá para a rua pedir voto, mas, quando chega a hora de ganhar, eles não querem.

Então, se você está aí do outro lado me ouvindo e é uma mulher, apoie uma mulher, vote em uma mulher. Se você é negro, vote em uma pessoa negra. Existe, com certeza, um candidato bom na sociedade que pode representar você. Busque também a representatividade. Eu sempre digo que minha primeira opção são mulheres. Se não houver uma opção, como agora no caso da Presidência, com certeza vou votar em um homem, mas infelizmente precisamos sempre buscar formas de aumentar a representatividade. E isso não significa votar apenas em alguém com quem você concorda politicamente. A gente precisa de diversidade no Congresso, no Executivo, para que os debates sobre o país sejam mais plurais.

Veja o vídeo disponível no perfil do Fala Caio, no Instagram, sobre o assunto:

FONTE/CRÉDITOS: Caio Andrade | Fala Caio