Os aplicativos de relacionamento mudaram profundamente a maneira como as pessoas se conhecem, se relacionam e vivem sua sexualidade. Entre homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, plataformas de encontros também passaram a fazer parte de uma realidade na qual sexo e consumo de substâncias podem aparecer associados.

É nesse contexto que ganhou visibilidade o chemsex, termo utilizado para descrever o uso intencional de substâncias psicoativas durante ou antes de encontros sexuais. A prática pode envolver diferentes drogas e está relacionada, em alguns contextos, a encontros casuais, sexo em grupo e festas prolongadas.

Uma pesquisa realizada no Brasil e em Portugal com 2.361 homens que fazem sexo com homens encontrou que 920 participantes, ou 38,9%, relataram ter praticado chemsex durante o período analisado. Entre aqueles que praticaram, 95% tiveram relações com parceiros casuais. O estudo utilizou, inclusive, aplicativos de encontros voltados ao público masculino para recrutar participantes.

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Quando o aplicativo deixa de ser apenas um encontro

Aplicativos de relacionamento oferecem rapidez e anonimato. Em poucos minutos, é possível conversar, combinar um encontro e encontrar alguém que esteja próximo. Essa facilidade também pode favorecer a formação de grupos e encontros nos quais o consumo de substâncias já é combinado previamente.

Reportagem publicada pela revista piauí descreveu como aplicativos, especialmente o Grindr, passaram a ser utilizados em determinados círculos para facilitar encontros envolvendo metanfetamina e sexo. A reportagem também relatou investigações policiais envolvendo pessoas que utilizavam o aplicativo para comercializar drogas.

Isso não significa que os aplicativos sejam responsáveis pelo consumo de drogas ou que a maioria de seus usuários participe desse tipo de prática. Eles são, entretanto, uma das ferramentas que podem facilitar a conexão entre pessoas interessadas em determinados comportamentos.

O perigo pode aparecer quando o controle desaparece

Uma das principais preocupações relacionadas ao chemsex é a perda da capacidade de avaliar riscos. Sob efeito de determinadas substâncias, podem ocorrer alterações de percepção, julgamento e consciência.

A Organização Mundial da Saúde relaciona o chemsex a comportamentos que podem aumentar a exposição ao HIV, hepatites virais e outras infecções sexualmente transmissíveis, especialmente quando há múltiplos parceiros, sexo sem preservativo e encontros prolongados.

Existe ainda o risco de overdose. Um estudo publicado em 2026 destaca que substâncias como metanfetamina, catinonas sintéticas e GHB/GBL estão entre as mais associadas ao chemsex e chama atenção para a dificuldade de identificar mortes relacionadas à prática, já que registros médicos e policiais nem sempre documentam a orientação sexual ou o contexto sexual relacionado ao consumo.

Há casos em que o encontro terminou em morte

Os riscos não são apenas teóricos.

No Reino Unido, quatro homens — Anthony Walgate, Gabriel Kovari, Daniel Whitworth e Jack Taylor — foram assassinados por Stephen Port, que recebeu prisão perpétua. Segundo a investigação e o processo, as vítimas receberam doses fatais de GHB. Os encontros estavam relacionados ao uso de aplicativos e ao ambiente de chemsex.

Outro caso envolveu Eric Michels, de 54 anos, que conheceu Gerald Matovu pelo Grindr. Matovu foi condenado por seu assassinato após a administração de uma dose fatal de GHB. A investigação apontou que ele e um comparsa utilizavam aplicativos de encontros para abordar homens, sendo que alguns eram drogados para facilitar roubos.

Esses casos também mostram que o problema não se resume à overdose acidental. Um encontro marcado pela internet pode envolver violência, roubo, abuso sexual ou administração criminosa de substâncias sem consentimento.

E quando a droga entra na festa?

O fenômeno também pode aparecer em ambientes de lazer LGBT+. Uma pesquisa realizada em uma casa noturna do Rio de Janeiro acompanhou 36 festas eletrônicas entre 2018 e 2019 e observou o consumo de drogas entre homens gays. O estudo identificou que o uso de substâncias podia funcionar, para alguns participantes, como parte de rituais de sociabilidade e pertencimento dentro daquele ambiente.

Isso ajuda a entender por que o debate não deve ser limitado aos encontros marcados por aplicativos. Festas, clubes, saunas, apartamentos e encontros privados também podem fazer parte dessa rede de sociabilidade.

O problema surge quando o consumo passa a ser naturalizado como condição para se divertir, se relacionar ou experimentar sexualmente. A pressão do grupo, a busca por desinibição e a necessidade de prolongar a experiência podem contribuir para situações cada vez mais arriscadas.

Uma questão de saúde pública, e não de julgamento

Falar sobre drogas e sexo entre homens gays exige cuidado para não transformar um problema específico em estigma contra toda uma comunidade.

A população LGBT+ é diversa, e a grande maioria das pessoas que utiliza aplicativos de relacionamento não pratica chemsex. O debate deve se concentrar nos contextos de vulnerabilidade e nas estratégias de prevenção, informação e redução de danos.

Pesquisas brasileiras recentes continuam mostrando que o uso sexualizado de substâncias é um fenômeno complexo, com diferentes padrões de consumo e diferentes contextos sociais. Um estudo publicado em 2025 identificou diferentes combinações de substâncias entre homens que fazem sexo com homens no Brasil, reforçando que não existe um único perfil de usuário.

Entre a liberdade e a responsabilidade

Os aplicativos transformaram os encontros e ampliaram as possibilidades de conexão. Mas a mesma tecnologia que aproxima pessoas também pode facilitar situações para as quais nem sempre existe preparação.

O debate sobre sexo e drogas precisa sair do silêncio. Falar sobre chemsex significa falar sobre consentimento, prevenção de ISTs, overdose, violência, dependência, saúde mental, segurança nos encontros e acesso a atendimento.

Porque, quando uma experiência de prazer envolve substâncias capazes de alterar profundamente a consciência, o limite entre uma escolha consciente e uma situação de perigo pode se tornar muito pequeno.

E, em alguns casos documentados, esse limite já significou a perda de uma vida.

FONTE/CRÉDITOS: Mundo GTV