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Ser gay no Brasil durante boa parte da vida de Jorge Lafond significava enfrentar uma sociedade que tratava a homossexualidade como desvio, pecado e até doença. Ser negro e gay tornava essa caminhada ainda mais difícil. Mesmo assim, Lafond escolheu ocupar espaços onde poucos como ele conseguiam chegar e fez de sua presença uma forma de resistência.
Nascido Jorge Luiz Souza Lima, em 29 de março de 1952, em Nilópolis, no Rio de Janeiro, o artista descobriu ainda criança que era homossexual. Em uma entrevista, contou que cresceu ouvindo que ser gay era algo “feio” e que tinha medo de que seus pais descobrissem.
A dança foi uma das primeiras portas que se abriram para Lafond. Estudou balé clássico e dança africana, trabalhou com nomes importantes como Mercedes Baptista e, ainda jovem, começou a viajar pelo exterior. Durante anos, apresentou-se na Europa e nos Estados Unidos, construindo uma carreira como bailarino antes de conquistar a televisão brasileira.
Em 1974, chegou ao corpo de balé do Fantástico, da TV Globo. Depois, trabalhou com Jô Soares no Viva o Gordo e participou de produções como Plunct, Plact, Zuuum. Em 1987, interpretou Bob Bacall na novela Sassaricando e, posteriormente, participou de Os Trapalhões.
Mas foi no humor que seu nome se tornou inesquecível.
Na década de 1990, Jorge Lafond ganhou enorme popularidade como Vera Verão, no programa A Praça é Nossa, do SBT. Durante aproximadamente dez anos, a personagem entrou na casa de milhões de brasileiros e transformou Lafond em um dos artistas mais conhecidos da televisão.
Vera Verão, porém, também revela uma contradição daquele período. Ao mesmo tempo em que colocava um personagem afeminado, negro e assumidamente associado ao universo LGBTQIA+ diante de milhões de pessoas, a televisão frequentemente transformava essas características em motivo de piada. O próprio nome “Vera Verão” chegou a ser utilizado de forma pejorativa contra homens gays, especialmente homens negros e afeminados.
Ainda assim, Lafond não passou pela televisão de maneira silenciosa. Ele enfrentou preconceitos, falou abertamente sobre sua sexualidade e ocupou espaços que, naquele Brasil, eram majoritariamente destinados a pessoas brancas e heterossexuais.
Sua trajetória também esteve ligada às discussões sobre diversidade e prevenção às doenças sexualmente transmissíveis. Em 2001, participou de uma campanha do Ministério da Saúde. A escolha, entretanto, gerou críticas de grupos do movimento negro e LGBTQIA+, que questionavam o estereótipo associado à personagem Vera Verão.
Essa é uma parte importante da história de Lafond: ele foi, ao mesmo tempo, vítima e enfrentador dos estereótipos de sua época. Sua imagem carregava as marcas de uma televisão que muitas vezes fazia humor com a diferença, mas sua presença também ajudou a abrir uma fresta para que pessoas negras e LGBTQIA+ fossem vistas em um dos meios de comunicação mais poderosos do país.
Em 2002, Lafond protagonizou outro episódio controverso ao participar do Domingo Legal, do SBT. O artista teria sido retirado do palco antes da apresentação do padre Marcelo Rossi. O episódio gerou repercussão e Lafond chegou a falar publicamente sobre o ocorrido.
Pouco depois, sua saúde começou a se deteriorar. Jorge Lafond foi internado diversas vezes, enfrentando problemas cardíacos, pressão alta e complicações renais. Em 11 de janeiro de 2003, aos 50 anos, morreu em São Paulo após sofrer um infarto seguido de falência múltipla dos órgãos.
Sua morte encerrou uma trajetória de 33 anos de carreira, mas não apagou sua importância.
Hoje, Jorge Lafond é lembrado não apenas como o homem por trás de Vera Verão, mas como um artista negro e gay que atravessou décadas de preconceito para conquistar seu lugar na cultura brasileira. Sua história ajuda a compreender o quanto era difícil ser diferente em uma época em que a homossexualidade ainda era tratada social e institucionalmente como doença e em que a representação LGBTQIA+ na televisão era frequentemente limitada ao estereótipo.
Lafond abriu caminhos, mesmo em um tempo em que quase não havia caminhos abertos.
Sua trajetória permanece como memória de resistência, talento e coragem — e também como um convite para olhar criticamente para o passado e reconhecer o quanto a luta pela diversidade foi construída por pessoas que, como Jorge Lafond, tiveram coragem de existir publicamente quando simplesmente ser quem eram já era um ato de enfrentamento.
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