Falar sobre a história da arte drag no Brasil é também falar sobre artistas que abriram caminhos quando quase não havia espaço para elas. Entre esses nomes está Miss Biá, considerada uma das grandes pioneiras da arte drag brasileira e uma personagem fundamental da noite paulistana.

Nascida Eduardo de Castro, em 1939, Miss Biá começou sua trajetória artística ainda jovem, em uma época em que assumir publicamente uma identidade ligada à homossexualidade podia significar enfrentar violência, discriminação e perseguição.

Foi nos palcos e nas noites de São Paulo que ela encontrou uma forma de transformar a própria existência em espetáculo.

Publicidade
Publicidade

Uma estrela antes da fama das drags

Miss Biá surgiu artisticamente em um período muito diferente do atual. Não existiam redes sociais, reality shows de drag queens ou grandes festivais dedicados à cultura drag.

A presença de homens vestidos como mulheres nos palcos e nas boates ainda era cercada por preconceito. Mesmo assim, artistas como Miss Biá encontraram nesses espaços uma maneira de construir carreira e criar uma comunidade.

Com figurinos sofisticados, maquiagem, humor e muita personalidade, ela se tornou conhecida pelo talento para interpretar grandes divas e pela capacidade de comandar o público.

Sua carreira atravessou décadas e acompanhou importantes transformações da noite LGBT+ brasileira.

Da noite paulistana à história da comunidade LGBT+

Durante sua trajetória, Miss Biá passou por diferentes casas noturnas e espaços de entretenimento. Sua carreira esteve ligada principalmente à noite de São Paulo, cidade que se tornou um dos principais centros da cultura LGBT+ brasileira.

Mas sua importância ultrapassava o palco.

Para uma geração que cresceu em uma sociedade na qual a homossexualidade era frequentemente tratada com preconceito e violência, encontrar uma artista como Miss Biá significava também encontrar uma possibilidade de existência.

Ela representava irreverência, liberdade e coragem.

Em uma época em que poucas pessoas LGBT+ tinham visibilidade pública, artistas transformistas e drag queens ocupavam um papel importante na construção de espaços de sociabilidade e expressão.

O humor como ferramenta de resistência

Uma das características marcantes de Miss Biá era o humor.

Ela sabia transformar situações cotidianas em espetáculo e utilizava a irreverência como uma forma de conquistar o público.

O humor, naquele contexto, também podia funcionar como mecanismo de sobrevivência.

Em vez de permitir que o preconceito definisse sua existência, Miss Biá transformava aquilo que poderia ser motivo de perseguição em personagem, arte e entretenimento.

Era uma forma de ocupar o palco e dizer: “Nós estamos aqui.”

Uma referência para novas gerações

A importância de Miss Biá pode ser percebida quando observamos a evolução da arte drag no Brasil.

Hoje, drag queens possuem espaço em programas de televisão, plataformas de streaming, teatros, grandes eventos, redes sociais e competições nacionais e internacionais.

Mas essa visibilidade não surgiu do nada.

Antes das grandes produções e dos milhões de seguidores, existiram artistas que precisaram construir seus próprios palcos.

Miss Biá pertence a essa geração pioneira.

Sua trajetória ajuda a compreender que a história da cultura LGBT+ brasileira também foi construída em boates, bares, teatros e pequenos espaços de resistência cultural.

Um legado que permanece

Miss Biá morreu em 2020, aos 80 anos, deixando uma trajetória de mais de seis décadas dedicada à arte.

Sua história foi registrada em entrevistas, documentários e homenagens que ajudaram a preservar a memória de uma artista que atravessou diferentes períodos da história brasileira.

Mais do que uma drag queen famosa, Miss Biá se tornou parte da memória cultural da comunidade LGBT+.

Sua geração enfrentou um Brasil em que ser LGBT+ significava lidar diariamente com o preconceito e a falta de representação. Mesmo assim, ela escolheu subir ao palco.

E talvez seja justamente aí que esteja sua maior importância.

Cada vez que uma nova drag queen entra em cena, constrói uma personagem, coloca uma peruca, prepara a maquiagem e encara uma plateia, existe uma história anterior que tornou aquele momento possível.

Entre essas histórias está a de Miss Biá.

Uma mulher de palco, uma pioneira da noite paulistana e uma das artistas que ajudaram a abrir caminho para a arte drag brasileira.

Seu nome permanece como parte de uma história que não pode ser esquecida.

FONTE/CRÉDITOS: Mundo GTV