Durante meses, o mundo pareceu suspender o próprio movimento. Aeroportos vazios, ruas desertas, escolas fechadas, hospitais lotados, máscaras cobrindo rostos e famílias separadas por medo de uma doença até então desconhecida. Em poucos meses, a Covid-19 deixou de ser uma notícia distante sobre um surto na China e passou a fazer parte da rotina de bilhões de pessoas.

Hoje, anos depois daquele período, muita coisa voltou ao normal. As pessoas voltaram aos escritórios, restaurantes, festas, shows, viagens e grandes eventos. Crianças retornaram às escolas, empresas retomaram atividades presenciais e o uso permanente de máscaras deixou de fazer parte do cotidiano da maioria da população.

Mas a pandemia não desapareceu completamente da memória e muito menos de suas consequências.

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A Covid-19 deixou milhões de mortos no mundo, pressionou sistemas de saúde, provocou crises econômicas, acelerou a digitalização de serviços e modificou hábitos que permanecem até hoje. Também expôs diferenças sociais, falhas de governos, disputas políticas e a importância da ciência e da vacinação.

Em 5 de maio de 2023, a Organização Mundial da Saúde declarou o fim da emergência de saúde pública de importância internacional relacionada à Covid-19. A decisão, entretanto, não significou que o vírus tivesse deixado de existir. A própria OMS alertou que a doença continuaria sendo uma ameaça à saúde global e que milhões de pessoas ainda sofriam com consequências da infecção.

O começo de uma crise que ninguém imaginava

A história começou a ganhar dimensão internacional no final de 2019.

Em 31 de dezembro daquele ano, a Organização Mundial da Saúde recebeu informações sobre um grupo de casos de pneumonia de causa desconhecida registrado em Wuhan, na China. Poucos dias depois, as autoridades chinesas identificaram um novo coronavírus, posteriormente denominado SARS-CoV-2, causador da Covid-19.

Inicialmente, o problema parecia localizado. Mas a velocidade de transmissão do vírus rapidamente mostrou que não se tratava de uma crise restrita à China.

Em 30 de janeiro de 2020, a OMS declarou o surto uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Em 11 de março, diante da expansão mundial da doença, a organização caracterizou a Covid-19 como uma pandemia.

A partir daquele momento, governos passaram a adotar medidas extraordinárias. Fronteiras foram fechadas, voos cancelados, escolas interromperam as aulas presenciais e diversas cidades estabeleceram restrições à circulação de pessoas.

O mundo entrou em uma realidade para a qual não estava preparado.

O vírus chega ao Brasil

O Brasil registrou oficialmente o primeiro caso de Covid-19 em 26 de fevereiro de 2020. A partir daí, o vírus começou a se espalhar rapidamente pelo território nacional.

O país, inicialmente, tentou responder com medidas de isolamento, restrições de atividades, suspensão de eventos e campanhas de prevenção. Estados e municípios adotaram diferentes estratégias, muitas vezes em desacordo entre si e também com o governo federal.

O cenário foi marcado por uma intensa disputa política sobre como enfrentar a doença.

Enquanto governadores e prefeitos anunciavam medidas de restrição, o então presidente Jair Bolsonaro adotava uma postura frequentemente crítica às políticas de isolamento e às restrições econômicas.

O resultado foi uma sucessão de crises sanitárias, políticas e econômicas.

A primeira grande onda

Ao longo de 2020, hospitais de diferentes regiões brasileiras passaram a receber um número crescente de pacientes com sintomas graves.

Profissionais de saúde enfrentaram jornadas exaustivas. Faltavam leitos em determinados momentos e regiões, equipamentos de proteção precisavam ser ampliados e famílias passaram a acompanhar, muitas vezes à distância, a internação de parentes.

O isolamento social também trouxe consequências profundas.

Milhões de trabalhadores passaram a trabalhar de casa. Reuniões presenciais foram substituídas por videoconferências. Restaurantes passaram a depender ainda mais de entregas. Pequenos comerciantes precisaram se adaptar rapidamente ao comércio digital.

Para muitas pessoas, entretanto, o home office não era uma opção. Trabalhadores de serviços essenciais continuaram saindo de casa todos os dias, aumentando a exposição ao vírus.

A pandemia também escancarou desigualdades sociais que já existiam.

Enquanto parte da população conseguia trabalhar remotamente e manter algum distanciamento, outra parcela precisava utilizar transporte público lotado, trabalhar presencialmente e enfrentar dificuldades para manter renda e segurança.

2021: o ano mais dramático

Se 2020 foi o ano do choque inicial, 2021 seria lembrado no Brasil como um dos períodos mais dolorosos da pandemia.

O país enfrentou novas ondas de transmissão e o surgimento de variantes mais transmissíveis.

Uma das mais importantes foi a variante Gamma, identificada inicialmente em Manaus e posteriormente disseminada por diversas regiões brasileiras. O Ministério da Saúde registrou a predominância da Gamma em grande parte do país durante determinado período de 2021. Posteriormente, a variante Delta ganhou espaço e, no final daquele ano, a Ômicron passou a predominar.

Manaus tornou-se um dos símbolos mais fortes da tragédia brasileira. O colapso provocado pela segunda onda expôs a fragilidade da estrutura de saúde diante de uma explosão de casos.

O país assistiu a cenas que se tornaram inesquecíveis: hospitais superlotados, profissionais trabalhando no limite e famílias procurando atendimento para parentes em estado grave.

Foi também nesse período que a vacinação começou a mudar a trajetória da pandemia.

A chegada das vacinas

A campanha nacional de vacinação contra a Covid-19 começou oficialmente em 18 de janeiro de 2021. O processo foi realizado inicialmente de acordo com grupos prioritários, considerando risco de adoecimento e morte.

A vacinação trouxe esperança depois de meses de medo.

Profissionais de saúde, idosos e grupos considerados mais vulneráveis foram os primeiros a receber os imunizantes. Gradualmente, a campanha avançou para outras faixas etárias.

Os resultados começaram a aparecer.

Em julho de 2021, o Ministério da Saúde registrava uma queda superior a 40% nos casos e óbitos em um período de aproximadamente um mês, associada ao avanço da vacinação.

Em outubro daquele ano, mais de 100 milhões de brasileiros já estavam completamente vacinados, considerando duas doses ou uma dose única, de acordo com os critérios daquele momento.

A vacina não eliminou a possibilidade de infecção, mas reduziu de maneira importante o risco de formas graves, hospitalizações e mortes.

A demora na compra de vacinas e as críticas ao governo Bolsonaro

A condução do governo federal durante a pandemia tornou-se um dos capítulos mais controversos da história recente brasileira.

Durante meses, Jair Bolsonaro fez declarações que minimizaram a gravidade da doença e questionaram medidas de prevenção. A postura do presidente provocou críticas de especialistas, entidades médicas, governadores, prefeitos e setores da sociedade.

Um dos pontos mais questionados posteriormente foi a negociação para aquisição de vacinas.

Durante depoimento à CPI da Pandemia no Senado, o representante da Pfizer Carlos Murillo afirmou que a empresa havia apresentado ao governo brasileiro ofertas para fornecimento de vacinas em agosto de 2020. Uma das propostas previa até 70 milhões de doses, com possibilidade de entrega de parte dos imunizantes ainda naquele ano. Segundo o executivo, não houve resposta do governo às primeiras ofertas.

A própria CPI investigou a condução das negociações e a postura do governo federal durante a crise. O relatório final recomendou o indiciamento de dezenas de pessoas e apontou, entre outros temas, suspeitas relacionadas à condução da pandemia, ao negacionismo e às negociações para aquisição de vacinas.

Em junho de 2021, a CPI chegou a classificar publicamente como “atraso fatal e doloroso” a mudança de postura do presidente em relação às vacinas, em uma nota divulgada após pronunciamento de Bolsonaro.

É importante, porém, separar crítica política de comprovação jurídica: a existência de demora nas negociações e os fatos investigados pela CPI são documentados; já a atribuição direta de determinadas mortes a uma decisão específica exige demonstração causal e não deve ser apresentada simplesmente como fato consumado.

Ainda assim, olhando em retrospectiva, a discussão permanece relevante: em uma pandemia, tempo significa vidas potencialmente protegidas, e a velocidade de aquisição e distribuição de vacinas pode ser decisiva.

A vacinação muda o rumo da pandemia

Com a ampliação da imunização, o cenário começou a mudar.

Em agosto de 2021, o Brasil ultrapassou 180 milhões de doses aplicadas. No mês seguinte, a média móvel de mortes havia caído significativamente em comparação com os picos anteriores.

Em 2022, o país já havia ultrapassado a marca de 360 milhões de doses aplicadas, com ampla cobertura entre a população elegível.

A vacinação, associada à imunidade adquirida pela população e às mudanças na dinâmica do vírus, permitiu que a sociedade gradualmente retomasse suas atividades.

Mas a pandemia ainda reservaria novos capítulos.

Delta, Ômicron e o fim da emergência

A variante Delta aumentou a preocupação mundial em 2021. Mais tarde, a Ômicron passou a dominar a circulação do vírus em diversos países, inclusive no Brasil.

Identificada no final de 2021, a Ômicron mostrou uma capacidade de transmissão muito elevada. O Ministério da Saúde registrou sua predominância no Brasil a partir do final daquele ano.

O avanço da vacinação ajudou a reduzir o impacto das novas ondas sobre os sistemas de saúde, embora milhões de pessoas ainda tenham sido infectadas.

Aos poucos, máscaras deixaram de ser obrigatórias em diversos lugares, grandes eventos voltaram a acontecer e a economia começou a recuperar parte da atividade perdida.

Em maio de 2023, a OMS encerrou a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional relacionada à Covid-19. A decisão representou uma mudança histórica: a fase emergencial global havia terminado, mas o vírus continuava circulando.

O mundo depois da pandemia

Se existe uma palavra capaz de definir o período pós-pandemia, talvez seja “adaptação”.

Alguns hábitos desapareceram tão rapidamente quanto surgiram. Outros permaneceram.

O álcool em gel deixou de estar obrigatoriamente em todos os balcões, mas ainda pode ser encontrado em empresas, hospitais, restaurantes e estabelecimentos comerciais.

O trabalho remoto, que antes era exceção em muitas empresas, tornou-se uma possibilidade concreta para milhões de trabalhadores.

Reuniões virtuais passaram a fazer parte da rotina. Consultas médicas a distância ganharam espaço. Compras pela internet se consolidaram. Serviços digitais foram acelerados.

A pandemia também mudou a relação das pessoas com doenças respiratórias.

Hoje, muitas pessoas que apresentam sintomas de gripe ou Covid-19 passaram a considerar ficar em casa, evitar contato próximo ou utilizar máscara em determinados ambientes  principalmente para proteger idosos, pessoas imunossuprimidas ou indivíduos mais vulneráveis.

Não se trata de uma regra universal, mas de uma mudança cultural importante.

A máscara deixou de ser símbolo de medo

Durante o auge da pandemia, uma máscara no rosto era praticamente uma declaração de que aquele ambiente estava sob ameaça.

Hoje, a relação é diferente.

Em grande parte do cotidiano, a máscara deixou de ser obrigatória e deixou também de representar o cenário de emergência que marcou 2020 e 2021.

Ela permanece, entretanto, como uma ferramenta de proteção utilizada principalmente em situações específicas.

Hospitais e unidades de saúde continuam sendo ambientes nos quais medidas de prevenção respiratória têm importância especial. Em períodos de aumento de doenças respiratórias, parte da população também retoma voluntariamente alguns cuidados.

É uma espécie de memória prática da pandemia.

O trauma que não aparece nos números

Há, porém, uma dimensão da pandemia que nenhum gráfico consegue representar completamente.

São as pessoas que perderam pais, mães, filhos, irmãos, companheiros e amigos.

São profissionais de saúde que passaram meses convivendo diariamente com a morte.

São famílias que não conseguiram realizar despedidas tradicionais.

São crianças e adolescentes que passaram períodos importantes de suas vidas longe da escola e dos amigos.

São trabalhadores que perderam empregos, empresas que fecharam e famílias que tiveram sua renda reduzida.

E são também aqueles que sobreviveram à infecção, mas permaneceram com sintomas e consequências por meses ou até anos.

A chamada condição pós-Covid, ou Covid longa, tornou-se uma das heranças da pandemia. A OMS continua alertando que milhões de pessoas sofrem com efeitos prolongados da doença.

Uma sociedade mais consciente?

A pandemia trouxe uma lição difícil: sistemas de saúde precisam estar preparados não apenas para as doenças conhecidas, mas também para aquilo que ainda não existe ou não foi identificado.

Ela mostrou a importância de hospitais estruturados, profissionais valorizados, pesquisa científica, produção de vacinas, vigilância epidemiológica e comunicação pública baseada em evidências.

Também mostrou o perigo da desinformação.

Em meio ao medo, informações falsas circularam pelas redes sociais com velocidade semelhante à do próprio vírus. Tratamentos sem eficácia comprovada ganharam espaço, vacinas foram alvo de teorias conspiratórias e recomendações científicas passaram a ser discutidas como questões políticas.

O resultado foi uma crise dentro da própria crise: além de combater um vírus, autoridades sanitárias precisaram combater a desinformação.

A pandemia que ainda ensina

Seis anos depois do início daquele período que paralisou o planeta, é possível olhar para trás com alguma distância.

Mas talvez ainda seja cedo para dizer que aprendemos tudo o que a pandemia tentou ensinar.

O coronavírus mudou a rotina das pessoas, transformou relações de trabalho, acelerou tecnologias e colocou a saúde pública no centro do debate.

Também deixou uma pergunta que continua atual: o que aconteceria se uma nova emergência sanitária de grandes proporções começasse amanhã?

A experiência da Covid-19 mostrou que nenhum país está completamente isolado de uma crise global. Um surto que começa a milhares de quilômetros pode, em poucas semanas, chegar a qualquer cidade.

A pandemia também mostrou que decisões tomadas por governos têm consequências que ultrapassam os gabinetes. Escolhas relacionadas a isolamento, comunicação, testagem, equipamentos, medicamentos e principalmente vacinação podem influenciar o curso de uma crise.

No Brasil, a história ainda precisa ser contada sob diferentes perspectivas: a dos cientistas, dos profissionais de saúde, dos gestores públicos, dos trabalhadores, dos empresários e, principalmente, das famílias que perderam alguém.

O mundo voltou a funcionar. Mas nunca voltou a ser exatamente o mesmo.

Hoje, as ruas estão cheias novamente.

Os aeroportos voltaram a receber milhões de passageiros. Shows reúnem multidões. Restaurantes estão lotados. Crianças brincam nas escolas. Empresas funcionam presencialmente ou em modelos híbridos. A vida retomou sua velocidade.

Para quem olha rapidamente, parece que tudo ficou para trás.

Mas basta uma máscara em uma gaveta, uma fotografia de uma fila de vacinação ou uma notícia sobre novas variantes para lembrar que aquela realidade aconteceu.

A Covid-19 deixou de ser a emergência que dominava o planeta, mas não deixou de fazer parte da história.

A maior lição talvez seja justamente essa: pandemias terminam, emergências passam, cidades reabrem e a vida continua.

Mas a memória precisa permanecer.

Porque esquecer completamente o que aconteceu pode significar estar menos preparado para a próxima vez.

E, em uma futura crise sanitária, talvez a diferença entre estar preparado e repetir os mesmos erros não esteja apenas na existência de uma vacina  mas na capacidade de uma sociedade de ouvir a ciência, agir rapidamente e colocar a preservação de vidas acima das disputas políticas.

FONTE/CRÉDITOS: Mundo GTV