O acesso à saúde para pessoas trans ainda é cercado por dúvidas, desinformação e, em muitos casos, preconceito. Uma das questões mais frequentes envolve a consulta com o ginecologista: afinal, mulheres trans podem ser atendidas por esse especialista? A resposta depende da anatomia da paciente e de suas necessidades de saúde  e não apenas de sua identidade de gênero.

Mulheres trans que realizaram a cirurgia de redesignação

Mulheres trans que passaram pela cirurgia de redesignação sexual (vaginoplastia) podem, e em muitos casos devem, realizar acompanhamento ginecológico.

Embora a neovagina tenha características diferentes da vagina de uma mulher cisgênero, ela também necessita de cuidados específicos. O ginecologista pode acompanhar questões como:

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  • avaliação da cicatrização e da profundidade vaginal;
  • prevenção e tratamento de infecções;
  • acompanhamento de dores ou desconfortos;
  • orientação sobre dilatação vaginal;
  • saúde sexual e qualidade de vida.

Vale lembrar que mulheres trans não possuem colo do útero, útero ou ovários. Portanto, exames como o Papanicolau tradicional não são indicados para todas as pacientes. No entanto, dependendo da técnica cirúrgica utilizada e das características do tecido da neovagina, o médico poderá solicitar outros exames quando houver necessidade clínica.

E as mulheres trans que não fizeram a cirurgia?

Sim. Mulheres trans que não realizaram a cirurgia de redesignação também podem procurar um ginecologista quando houver uma demanda relacionada à sua anatomia ou à saúde sexual.

Na prática, porém, muitos especialistas orientam que o acompanhamento seja realizado por profissionais com experiência em saúde LGBTQIA+, podendo envolver urologistas, endocrinologistas ou ambulatórios especializados em saúde trans.

Entre os motivos que podem levar uma mulher trans não operada ao consultório estão:

  • orientações sobre terapia hormonal;
  • prevenção e tratamento de ISTs;
  • dúvidas sobre sexualidade;
  • cuidados com a saúde íntima;
  • encaminhamentos para outros especialistas.

O mais importante é que nenhuma paciente seja recusada por sua identidade de gênero. Caso o profissional entenda que outro especialista possui maior experiência para determinada situação, o encaminhamento deve ocorrer de forma ética, respeitosa e sem discriminação.

Quando a recusa vira discriminação

Infelizmente, relatos de mulheres trans que tiveram atendimento negado ainda são frequentes.

Em 2022, um caso ganhou repercussão nacional quando uma mulher trans denunciou ter sido recusada em uma clínica ginecológica após informar que era trans. O estabelecimento alegou que o profissional "não atendia esse tipo de paciente", gerando críticas de entidades ligadas aos direitos humanos e à saúde.

Outro episódio bastante discutido ocorreu em diferentes estados brasileiros envolvendo pacientes que relataram ter sido impedidas de agendar consultas apenas por informarem sua identidade de gênero. Em muitos desses casos, os Conselhos Regionais de Medicina reforçaram que o médico pode se declarar sem experiência para determinado procedimento específico, mas não pode negar atendimento de forma discriminatória exclusivamente por a paciente ser uma mulher trans.

Especialistas lembram que o Código de Ética Médica determina que o atendimento deve respeitar a dignidade da pessoa humana e veda qualquer forma de discriminação por identidade de gênero.

O direito à saúde é para todas

O Sistema Único de Saúde (SUS) reconhece o direito das pessoas trans ao atendimento integral e humanizado. Diversos hospitais e ambulatórios brasileiros já contam com equipes multidisciplinares especializadas no acompanhamento da população trans, oferecendo atendimento em endocrinologia, ginecologia, urologia, psicologia e outras especialidades.

Mais do que discutir qual consultório deve atender cada paciente, especialistas defendem que o foco esteja na capacitação dos profissionais e no respeito às necessidades individuais de cada pessoa.

Independentemente de ter realizado ou não a cirurgia de redesignação, mulheres trans têm direito a um atendimento digno, livre de preconceitos e baseado em evidências científicas. Afinal, saúde é um direito universal e deve acolher todas as pessoas com respeito, empatia e responsabilidade.

FONTE/CRÉDITOS: Mundo GTV