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Os protestos em Minneapolis ganharam dimensão nacional ao longo de 2025 e atravessaram o início de 2026 como um dos episódios mais reveladores da política interna dos Estados Unidos recente. As manifestações, desencadeadas por operações federais de imigração, chamaram atenção não apenas pela resposta popular, mas pelo que expuseram a partir dali: tensões latentes entre o governo federal, autoridades locais e a sociedade civil. Desde os primeiros dias, análises especializadas indicavam que não se tratava de um episódio isolado, mas do acúmulo de decisões políticas, falhas de coordenação institucional e uso excessivo da força em um contexto já marcado por polarização.
À medida que os acontecimentos foram sendo esclarecidos, ficou evidente que o problema extrapolava a questão migratória. A atuação do ICE sem alinhamento com governos estaduais e municipais expôs limites institucionais, reacendeu debates sobre direitos civis e ampliou conflitos internos. Mortes durante operações e a repressão aos protestos funcionaram como catalisadores de uma mobilização mais ampla, envolvendo sindicatos, movimentos comunitários e lideranças políticas, com impactos que rapidamente se espalharam para além de Minnesota.
É nesse cenário que o 17º episódio do ExpliCA recebe Karen Honório, professora de Relações Internacionais dos cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Na entrevista exclusiva para o Fala Caio, analisamos o contexto das operações federais, o funcionamento do ICE e os efeitos políticos, sociais e internacionais da resposta do governo Trump diante da pressão popular, além das implicações desse tipo de condução para a credibilidade democrática dos Estados Unidos.
Ouça o episódio completo pelo Spotify e acompanhe todas as interações no conteúdo a seguir:
Pergunta 1: A imigração sempre foi um tema sensível nos Estados Unidos, mas os protestos recentes em Minneapolis, realizados sob temperaturas extremas, indicam um novo patamar de mobilização. Como o debate migratório chegou a esse ponto de tensão e resistência popular?
Karen Honório (UNILA): Essas mobilizações precisam ser entendidas para além do contexto local. O que começa em Minneapolis rapidamente ganha projeção nacional, com articulações em diferentes estados e até a convocação de uma greve geral, apoiada por artistas e movimentos sociais. Isso revela que o debate migratório deixou de ser regional e passou a ocupar um lugar central na política doméstica dos Estados Unidos.
Esse cenário está diretamente ligado à política migratória do novo governo Trump e ao papel estratégico que o tema passou a desempenhar. O presidente associa imigração à ideia de “resgate da soberania nacional”, construindo uma narrativa segundo a qual os migrantes seriam responsáveis por prejuízos econômicos, sociais e políticos. Ao politizar a imigração dessa forma, o governo mobiliza tanto seus apoiadores quanto setores contrários, especialmente em estados e cidades governados por democratas.
A imigração passa, então, a ser usada como instrumento político, inclusive para atacar adversários, criar a figura de um inimigo interno e justificar ações federais em territórios onde há maior resistência institucional.
Pergunta 2: Nos Estados Unidos, a relação entre as esferas de poder funciona de forma diferente do Brasil. Como essa autonomia dos estados ajuda a explicar os conflitos atuais entre o governo federal e autoridades locais?
Karen Honório (UNILA): Esse é um ponto central. O federalismo norte-americano concede aos estados e municípios uma autonomia muito maior do que a que existe no Brasil. Em determinados temas, inclusive na imigração, os estados podem adotar políticas próprias. É nesse contexto que surgem as chamadas “cidades ou estados santuários”, onde as leis locais oferecem maior proteção aos migrantes. Em Minneapolis, por exemplo, a polícia não é obrigada a informar automaticamente o serviço federal de imigração quando aborda um migrante indocumentado que não cometeu crime. Essa autonomia gera um conflito direto com o governo federal, que acusa governadores e prefeitos democratas de desrespeitar a supremacia das leis federais. O que vemos é um verdadeiro cabo de guerra entre a instância federal e as autoridades locais, alimentado tanto por divergências institucionais quanto por disputas políticas.
Pergunta 3: Você mencionou o uso político da retórica migratória por Donald Trump. Como essa estratégia se conecta à política externa e às crises internas do governo?
Karen Honório (UNILA): A política doméstica e a política externa do governo Trump estão profundamente conectadas. Quando observamos a atuação internacional dos Estados Unidos, marcada por ameaças, uso da força e desprezo pelo multilateralismo, encontramos elementos que ajudam a explicar o que acontece internamente. A criminalização dos migrantes é uma característica comum das direitas ultranacionalistas que ganharam força a partir de 2015. Trata-se de oferecer respostas simples para problemas complexos, deslocando a responsabilidade por crises econômicas e sociais para grupos vulneráveis. Ao mesmo tempo, essa estratégia desvia o foco de problemas reais da gestão, escândalos políticos e dificuldades econômicas. A violência empregada nas ações migratórias, prisões arbitrárias, violações de direitos humanos e até mortes, espelha a lógica de atuação do governo também no plano internacional. A violência passa a ser normalizada como método político.
Pergunta 4: Quando a imigração é tratada como questão de segurança pública, quais são os impactos para os direitos humanos e para a própria estabilidade social?
Karen Honório (UNILA): Quando um Estado enquadra a imigração como ameaça à segurança nacional, o migrante passa automaticamente a ser visto como inimigo ou criminoso. Esse processo, conhecido como “crimigração”, transforma o simples ato de migrar em algo passível de punição penal.Isso viola princípios básicos de direitos humanos, como o direito de migrar, previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Além disso, os dados não sustentam a ideia de que migrantes sejam responsáveis pelo aumento da criminalidade. Esse enquadramento cria uma névoa que impede o enfrentamento real dos problemas de segurança pública e aumenta a vulnerabilidade dos migrantes, que passam a evitar denunciar crimes por medo de deportação. O resultado é mais violência, mais exploração e menos confiança nas instituições.
Pergunta 5: Qual é o papel do ICE nesse contexto e como suas ações se intensificaram nos últimos anos?
Karen Honório (UNILA): O ICE existe desde o início dos anos 2000, mas sua atuação foi profundamente ampliada no governo Trump. Houve aumento expressivo de orçamento, de agentes e de poder discricionário. O problema é que, nesse processo, passaram a ocorrer violações claras da lei, como entradas em casas, igrejas e escolas sem mandado judicial. Essas práticas ferem direitos historicamente estabelecidos e a própria autonomia dos estados. O ICE se tornou o principal catalisador da política migratória federal, funcionando como instrumento de coerção e intimidação, o que explica a escalada dos protestos e da resistência social.
Pergunta 6: É possível pensar em políticas migratórias mais humanas e eficazes? O que seria necessário para isso?
Karen Honório (UNILA): O ponto central é vontade política. Políticas migratórias mais humanas exigem o reconhecimento do migrante como sujeito de direitos, com acesso a direitos sociais, econômicos e civis. Isso passa por políticas de acolhimento, integração local e participação ativa da sociedade civil, que precisa pressionar governos em todas as esferas. O problema é que muitos Estados ainda olham a migração exclusivamente pela lógica da segurança nacional, e não dos direitos humanos. Além disso, é fundamental desconstruir a ideia de “crise migratória”. O que existe, na maioria dos casos, são migrações provocadas por crises econômicas, sociais e políticas, muitas delas relacionadas a relações históricas de dependência e exploração. Migrar não é o problema, é a consequência.
Pergunta 7: O cenário atual tende a se agravar ou há sinais de recuo por parte do governo Trump?
Karen Honório (UNILA): Há indícios de uma certa distensão. Diante da forte mobilização social, da repercussão negativa e do custo político crescente, o governo começou a recalcular sua estratégia. Em Minneapolis, houve negociações, recuos discursivos e até mudanças em cargos responsáveis pelas operações. No entanto, a imigração continuará sendo usada como ferramenta política. Trata-se de uma resposta fácil para problemas complexos, e Trump dificilmente abrirá mão desse recurso. O que pode mudar é o grau de intensidade, dependendo da pressão social e institucional.
Pergunta 8: O que podemos esperar da atuação de Donald Trump nos próximos meses, tanto na política externa quanto interna?
Karen Honório (UNILA): Trump deve continuar operando pela lógica da ameaça e do tensionamento. Esse é o seu modo de fazer política. O que vai definir os limites dessa atuação é a resposta dos outros atores, governos, organizações internacionais e sociedade civil. O mundo tem aprendido a lidar com Trump. Em alguns casos, respostas firmes e coordenadas levaram a recuos e negociações. Mais do que observar o que Trump deseja, será fundamental acompanhar como a comunidade internacional reage. Essa resposta coletiva será a principal baliza para o alcance, ou o fracasso, das suas investidas.
Veja o vídeo disponível no perfil do Fala Caio, no Instagram, sobre o assunto:
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