Espaço para comunicar erros nesta postagem
A política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump volta a tensionar os limites da ordem internacional em 2026. A intervenção militar na Venezuela e as declarações recorrentes sobre a possibilidade de controle ou aquisição da Groenlândia não são episódios desconectados, mas manifestações de uma mesma lógica de poder que recoloca o uso da força, a coerção e o unilateralismo no centro da estratégia internacional norte-americana. Trata-se de uma inflexão que desafia princípios consolidados do direito internacional, fragiliza alianças históricas e reabre disputas que pareciam superadas desde o fim da Guerra Fria.
No caso da Venezuela, a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos marcou um ponto crítico. Independentemente das avaliações sobre o regime venezuelano, a operação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU nem apresentada como resposta a um ataque direto aos EUA, o que a coloca em choque com a Carta das Nações Unidas. Especialistas em direito internacional foram diretos ao classificar a ação como ilegal, alertando para o precedente que ela estabelece: se uma potência pode capturar um chefe de Estado soberano sem respaldo jurídico internacional, a própria noção de soberania passa a ser relativizada.
"Não há respaldo jurídico. O direito internacional é muito claro. Soberania estatal é toda a ordem interna, qualquer estado é protegido pelo princípio da soberania. O que isso significa? Significa que todos os estados devem ser respeitados. Atos de mudança de governo, remoção forçada de um chefe de estado por um outro estado, sem qualquer tipo de autorização, configura a violação pela área da soberania", comenta Thiago Romero, professor de Direito e Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-SP).
Essa lógica não é nova na história latino-americana e, ao longo do século 20, a região foi palco de intervenções diretas, golpes apoiados externamente, bloqueios econômicos e operações encobertas conduzidas em nome da segurança, do combate ao comunismo ou da defesa da democracia. O que muda agora é o contexto, em um mundo multipolar, com instituições internacionais enfraquecidas e disputas geopolíticas mais abertas, a ação dos Estados Unidos na Venezuela sinaliza que o recurso à força volta a ser tratado como instrumento legítimo de política externa, mesmo entre Estados formalmente soberanos.
O que acontece com a Groelândia?
Esse mesmo padrão aparece, com características próprias, no caso da Groenlândia. Desde o primeiro mandato de Trump, a ilha passou a ser mencionada publicamente como um ativo estratégico que os Estados Unidos deveriam controlar. Em 2026, essa retórica ganha novo peso ao ser acompanhada de declarações que não descartam cenários de escalada, ainda que diplomática ou militar, segundo alertou o primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen.

Jens-Frederik Nielsen é um político da Groenlândia e ocupa o cargo de primeiro-ministro da Groenlândia desde 2025. É líder dos Democratas e anteriormente ocupou o cargo de ministro do Trabalho e Recursos Minerais durante o gabinete Kielsen VII, de 2020 a 2021. Foto: Fala Caio.
Para compreender a gravidade dessas falas, é preciso entender o estatuto político da Groenlândia. A ilha é um território autônomo dentro do Reino da Dinamarca. Embora possua governo próprio e amplo controle sobre assuntos internos, defesa e política externa seguem sob responsabilidade dinamarquesa. A Groenlândia também faz parte da Otan por meio da Dinamarca, o que insere qualquer ameaça ao território em uma lógica de segurança coletiva. Não se trata, portanto, de uma área sem soberania definida ou de um espaço disponível à negociação entre grandes potências.
Ainda assim, Trump parece ver as regiões próximas aos EUA como peças de Lego e sendo ele mesmo a única criança a brincar. Romero destaque a proibição do uso da força: "A Carta das Nações Unidas vai falar, olha, é proibido você utilizar a força contra a integridade territorial e até mesmo a independência política de qualquer estado".
A importância estratégica da Groenlândia é real, pois sua localização no Ártico tem o potencial de recursos minerais e energéticos, além de rotas marítimas que ganham relevância com o degelo; um ponto-chave na disputa entre Estados Unidos, Rússia e China. O problema não está no interesse geopolítico em si, mas na forma como ele é articulado. Ao tratar publicamente a possibilidade de controle sobre a Groenlândia como algo em aberto, Trump desloca o debate do campo diplomático para o da pressão política e simbólica, colocando em xeque a soberania de um território aliado.
Infográfico mostra a posição estratégica da Groenlândia. Foto: Editoria de Arte | g1
A reação do governo groenlandês foi reveladora, ao afirmar que a população deve estar preparada para todos os cenários, Nielsen reconhece que a retórica de uma potência aliada já é suficiente para gerar insegurança interna. Ao mesmo tempo, ao lembrar que a Groenlândia integra a Otan e que qualquer escalada teria consequências globais, o primeiro-ministro explicita o paradoxo atual da política externa norte-americana: os Estados Unidos pressionam territórios e governos que fazem parte do mesmo sistema de alianças que Washington ajudou a construir.
Na última terça, 13, dentro dos próprios Estados Unidos, o Congresso passou a tratar o tema como um risco institucional. Senadores democratas e republicanos apresentaram um projeto de lei para impedir que o presidente utilize recursos federais em qualquer tentativa de exercer controle sobre territórios de países integrantes da Otan, incluindo a Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca. A iniciativa, batizada de NATO Unity Protection Act, expõe o grau de preocupação com a possibilidade de que a retórica se transforme em ação concreta.
O texto da proposta estabelece limites claros ao poder do Executivo, ao proibir que os Departamentos de Defesa e de Estado empreguem verbas públicas para bloquear, ocupar, anexar ou exercer qualquer forma de controle sobre o território de outro membro da aliança atlântica. Especialistas europeus e analistas de política internacional apontam que esse tipo de postura corrói a confiança dentro da Otan e enfraquece o princípio de defesa coletiva. Se um aliado passa a ser visto como potencial ameaça, a aliança perde seu fundamento político.
O fio condutor entre Venezuela e Groenlândia é claro: peças para fins diante dos interesses estratégicos dos Estados Unidos, ou melhor, os de Trump. No sul global, isso se manifesta por meio de intervenções diretas e operações militares. No norte global, por meio de pressão diplomática, retórica expansionista e ambiguidade calculada. A diferença está no método, não no princípio.
As eleições de meio de mandato se desenham como um fator adicional de pressão sobre Donald Trump, sobretudo em um cenário de polarização extrema e desgaste institucional. Tradicionalmente, esse tipo de pleito funciona como um referendo informal sobre o presidente em exercício, e sinais de instabilidade na política externa, conflitos com aliados históricos e ruídos sobre respeito a acordos internacionais tendem a pesar no voto de eleitores independentes e moderados.
Caso o Partido Republicano enfrente perdas no Congresso, Trump pode ver sua margem de manobra ainda mais reduzida, com maior dificuldade para aprovar projetos, ampliar investigações parlamentares e travar disputas internas que fragilizem sua liderança. Em um contexto de disputas apertadas, episódios que alimentam a percepção de imprevisibilidade e confrontação podem deixar de ser apenas retóricos e se transformar em custo político concreto.
O que se desenha a partir desses movimentos é uma política externa marcada por tensão constante, isolamento crescente e perda de confiança entre aliados históricos. Ao tratar acordos, fronteiras e soberanias como peças negociáveis, Trump abre espaço para que Rússia e China atuem como freios indiretos à ação norte-americana, seja ampliando influência diplomática, seja explorando o desgaste dos Estados Unidos junto à Europa.
O resultado é um ambiente internacional mais fragmentado, no qual Washington já não dita o ritmo sozinho e enfrenta resistência inclusive dentro da Otan. A relação com o bloco europeu se enfraquece não por divergências pontuais, mas pela sensação de imprevisibilidade e ruptura de compromissos básicos, um custo político que se acumula e reposiciona o equilíbrio de forças no cenário global.
Ouça mais com o ExpliCA |
Ouça a entrevista completa com Thiago Romero, professor de Direito e Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-SP). Na conversa, analisamos como as ações recentes dos Estados Unidos, especialmente na Venezuela, revelam fragilidades do sistema internacional e indicam uma lógica em que o poder político e militar ganha centralidade. Quando intervenções passam a ser tratadas como soluções viáveis, os efeitos se espalham e deixam de ser restritos ao país atingido.
Nossas notícias
no celular



Mundo GTV