O Caso Master ganhou dimensão nacional no fim de 2025 e atravessou os primeiros dias de 2026 como um dos episódios mais reveladores do sistema financeiro brasileiro recente. A liquidação do banco, confirmada no início de janeiro, não chamou atenção apenas pela quebra em si, mas pelo que veio à tona a partir dela: um conjunto de operações articuladas, fragilidades acumuladas nos balanços e uma cadeia de decisões que ajudou a corroer a confiança no mercado. Já em 26 de dezembro de 2025, análises especializadas apontavam que não se tratava de um evento isolado nem de uma ação precipitada das autoridades.

À medida que os detalhes foram sendo esclarecidos nos primeiros dias de janeiro de 2026, ficou mais evidente que o problema extrapolava os limites de uma única instituição. As conexões entre o Banco Master e a investidora Reag expuseram falhas de governança, lacunas na integração de dados entre sistemas e mecanismos pouco transparentes de circulação de recursos, ampliando riscos que, em um ambiente interligado, tendem a se espalhar com rapidez.

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É nesse cenário que o 16º episódio do ExpliCA recebe Adenauer Rockenmeyer, conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (CORECON-SP). Nesta entrevista exclusiva para o Fala Caio, analisamos os principais pontos do Caso Master, apresentando as falhas estruturais reveladas pelo caso e avaliando os impactos desse tipo de prática para a estabilidade e a credibilidade do sistema financeiro brasileiro.

Ouça o podcast completo pelo player do Spotify e veja todas as interações no conteúdo a seguir:

 

 

Pergunta 1 - Para começarmos de forma mais ampla, qual é a sua avaliação geral sobre o Banco Master, as investigações em curso e o papel da investidora Reag, que aparece como um dos fios condutores mais recentes do caso? Quais são os pontos centrais que o público precisa entender para não cair em interpretações equivocadas?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): Antes de entrar especificamente no caso, é importante esclarecer como o sistema financeiro funciona. Ele é composto por instituições bancárias e não bancárias. Os bancos captam recursos por meio de instrumentos como poupança, Certificado de Depósito Bancário (CDBs), Letra de Crédito do Agronegócio (LCAs) e Letra de Crédito Imobiliário (LCIs) e os direcionam para crédito a empresas, famílias e indivíduos. Já o mercado de capitais opera por meio de fundos de investimento, ações e outros instrumentos regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que permitem o financiamento das empresas fora do sistema bancário tradicional. A diferença central está na forma de captação e na supervisão: os bancos são regulados pelo Banco Central, enquanto os instrumentos do mercado de capitais ficam sob a alçada da CVM. No Caso Master, o que se observa é justamente o uso combinado desses dois ambientes regulatórios, o que dificulta o acompanhamento integral das operações e abre espaço para distorções que precisam ser explicadas com cuidado ao público.

 

Pergunta 2 - Muita gente tem dificuldade em diferenciar sistema financeiro, sistema bancário e economia em geral. Como essas esferas se distinguem e de que forma elas se conectam especificamente no Caso Master?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): No caso do Banco Master, é fundamental entender o histórico da instituição. Quando o banco foi adquirido por Daniel Vorcaro, ele já vinha de problemas anteriores, passou por uma reestruturação e até por uma mudança de nome. Isso fez com que a instituição permanecesse sob acompanhamento mais atento do Banco Central. O que ocorreu posteriormente foi a adoção de uma engenharia financeira malsucedida, que acabou gerando desequilíbrios relevantes dentro do sistema financeiro. Esse tipo de prática não afeta apenas uma empresa ou um banco isoladamente, mas pode produzir efeitos em cadeia, justamente por causa da interligação entre instituições, fundos e instrumentos financeiros.

 

Pergunta 3 - O Banco Central teve papel central ao identificar irregularidades, especialmente no contexto da tentativa de venda do Banco Master ao BRB. Houve debates sobre responsabilidades e a atuação de outros órgãos, como CVM, STF e Polícia Federal. Na sua avaliação, quais foram os pontos mais sensíveis da supervisão e como o Banco Central atuou nesse processo?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): O principal problema foi uma falha sistêmica de governança e supervisão. De um lado, o Banco Central regula as instituições bancárias; de outro, a CVM supervisiona fundos e instituições não bancárias. As informações não estavam integradas, o que gerou uma supervisão fragmentada. Isso permitiu operações de triangulação entre o banco e fundos de investimento. Na prática, havia captação por meio de fundos regulados pela CVM, com valores inflados em relação ao mercado, e esses recursos eram emprestados a empresas de fachada. Essas empresas, por sua vez, recompravam os próprios fundos, inflando artificialmente seus preços. Como o Banco Master detinha esses ativos, seu patrimônio era elevado de forma artificial, criando a falsa percepção de geração de valor. Essa estrutura demorou a ser detectada justamente por falhas na integração de dados, na governança e também no trabalho de auditorias externas, que deveriam ter identificado inconsistências na liquidez, na classificação de risco e na real qualidade desses ativos.

 

Pergunta 5 - Há críticas sobre a fragilização institucional da CVM nos últimos anos, incluindo redução de recursos e influência política. Na sua visão, se a CVM e o Banco Central estivessem em condições ideais, esse risco poderia ter sido evitado? Ou a resposta veio no momento possível?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): A decisão pela liquidação extrajudicial foi a mais adequada diante do cenário apresentado, porque o dano ao sistema já estava feito. É importante destacar que isso não surgiu de forma repentina, mas foi construído ao longo de diferentes períodos e gestões. Apesar das indicações políticas, tanto o Banco Central quanto a CVM contam com quadros técnicos altamente qualificados. O problema central foi a falha de governança e a fragmentação da supervisão. A partir desse episódio, o sistema precisa repensar seus mecanismos de compliance, responsabilização, classificação de risco e integração de informações. Mesmo com melhorias, é preciso reconhecer que sistemas financeiros complexos sempre estarão sujeitos a tentativas de exploração de brechas. A história mostra que, à medida que o sistema se torna mais sofisticado, também se sofisticam as estratégias para contorná-lo.

 

Pergunta 6 - Você mencionou a necessidade de aprimorar a governança do sistema financeiro. Considerando que ele é formado por múltiplas camadas técnicas, envolvendo gestoras, estruturas contábeis, operações de mercado e disputas comerciais, esse nível de complexidade dificulta a fiscalização? O sistema precisa reduzir camadas ou torná-las mais transparentes? Como você enxerga esse caminho?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): O sistema precisa evoluir principalmente no uso de tecnologia. Estamos vivendo a era dos dados, da consolidação de informações e da inteligência analítica. É fundamental aprimorar a supervisão baseada em dados, capaz de identificar padrões e comportamentos incompatíveis com o funcionamento normal do sistema, e fazer isso em tempo real. A ampliação do open finance é um ponto central, porque permite mapear melhor o fluxo de capitais entre instituições e entender como esses recursos circulam no mercado financeiro. Isso precisa vir acompanhado de responsabilização clara dos profissionais que emitem pareceres técnicos, atuam em auditorias e operam as regras de compliance. Não se trata apenas de reduzir camadas, mas de torná-las monitoráveis, integradas e transparentes. Ao mesmo tempo, defendo mais concorrência no sistema bancário, com facilitação para a entrada de novas instituições. Isso democratiza o crédito e estimula eficiência, desde que venha acompanhada de responsabilidade e supervisão adequada.

 

Pergunta 7 - Qual foi o impacto efetivo do Caso Master sobre o sistema financeiro e sobre a economia brasileira? Houve um abalo relevante de confiança ou o sistema conseguiu absorver o choque?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): É preciso olhar para os pontos positivos e negativos. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cumpriu seu papel ao assegurar cerca de R$ 41 bilhões, o que representa aproximadamente um terço do seu patrimônio, protegendo os investidores do Banco Master. Isso mostra que o mecanismo funciona. Por outro lado, o caso evidenciou problemas sérios de assimetria e qualidade da informação. Dados que não refletem a real situação das instituições comprometem análises, auditorias e classificações de risco. Havia também um risco jurídico relevante, com possíveis contestações judiciais e limitações impostas pelo sigilo bancário. A liquidação evitou um colapso maior, mas acendeu um alerta. Se o problema tivesse avançado, poderia ter comprometido a liquidez do próprio Fundo Garantidor. Isso exige uma reflexão sobre o tamanho do fundo, seus critérios de contribuição e a proporcionalidade entre as instituições participantes, além de um planejamento para recompor suas reservas.

 

Pergunta 8 - O Fundo Garantidor teve uma redução expressiva de recursos após o caso. Olhando para o arcabouço regulatório atual, quais são as principais lacunas jurídicas, econômicas e financeiras que o episódio escancarou?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): A principal lacuna é a fragmentação da informação. Quando um agente detém mais informações do que outro, surge a assimetria informacional, que gera risco moral e abre espaço para fraudes. Isso reforça a importância de auditorias mais rigorosas e de mecanismos de supervisão baseados no monitoramento do fluxo de capitais. É fundamental aprimorar a responsabilização de auditores e fortalecer a integração de dados entre os órgãos reguladores, para que seja possível acompanhar a circulação desses recursos de forma mais eficiente dentro do mercado financeiro e de capitais.

 

Pergunta 9 - As investigações indicam tentativas de manipulação contábil e simulações de operações, inclusive envolvendo bancos públicos. Na sua avaliação, qual foi o aspecto mais grave desse episódio?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): O mais grave foi a engenharia financeira construída para inflar artificialmente os balanços. A captação a 140%, a criação de empresas de fachada e a elevação fictícia do valor dos fundos sob gestão do banco criaram ativos sem sustentação econômica real. Essas práticas produziram um efeito dominó: pequenas distorções iniciais sustentaram uma estrutura maior baseada em números artificiais. A tentativa de simular negociações para elevar o valor de venda do banco apenas agravou esse cenário, revelando a fragilidade de todo o arranjo.

Como funcionava o esquema entre o Banco Master e a investidora Reag | o infográfico ilustra o circuito de recursos que partia da captação via CDBs com rentabilidade elevada, passava por empresas supostamente laranjas e fundos administrados pela Reag, inflava artificialmente o valor de ativos e retornava ao próprio banco, melhorando o balanço de forma contábil e retroalimentando a operação. Foto: Agência Brasil.

 

Pergunta 10 - O Fundo Garantidor oferece segurança aos depositantes, mas o caso reacendeu o debate sobre sua sustentabilidade. Que caminhos você enxerga para fortalecer essa estrutura e ampliar a segurança do sistema?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): O primeiro passo é revisar o modelo de contribuições, redistribuindo de forma mais eficiente os aportes das instituições para acelerar o crescimento do fundo. Também é essencial adotar ferramentas mais avançadas de monitoramento do fluxo de capitais, como sistemas de dupla verificação financeira. Outro ponto central é a responsabilização dos profissionais que emitem pareceres técnicos. Além disso, o sistema precisa investir mais em educação financeira. Rendimentos muito acima da média do mercado devem sempre despertar desconfiança. Não existe retorno elevado sem risco elevado.A educação financeira é uma camada de proteção tão importante quanto a regulação, porque ajuda o investidor a reconhecer sinais de alerta antes que o problema aconteça.

 

Pergunta 11 - Para encerrarmos, gostaria de deixar um espaço aberto para considerações finais. Há algum ponto que você considera essencial e que ainda não abordamos?

Adenauer Rockenmeyer (CORECON-SP): O ponto central é entender como esse episódio afetou a confiança no sistema e o risco de contaminação que ele representou. A dificuldade informacional foi determinante, e não por acaso a investigação buscou mapear todo esse processo com profundidade. Estamos falando de um problema que vai além do mercado financeiro. É um problema socioeconômico. Pessoas que trabalharam a vida inteira podem perder economias acumuladas por confiar em estruturas que pareciam seguras. O sistema financeiro brasileiro é avançado e tecnologicamente sofisticado, mas isso não elimina a necessidade de prudência. É fundamental buscar informação, orientação qualificada e compreender que, muitas vezes, aquilo que parece simples não é tão simples assim.

 

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FONTE/CRÉDITOS: Caio Andrade - Fala Caio