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Foi Carnaval no Brasil, e uma das principais festas do país segue como ponto de inflexão social, cujo gostar ou não faz parte da brincadeira do período. A questão torna-se problemática, quando a festa é precarizada, o seu valor simbólico é colocado em dúvida e a sua importância cultural colocada de lado. Essa estrutura, muitas vezes, banhada pelo racismo estrutural, é expandida quando olhamos para o movimento do dinheiro. O Carnaval é simultaneamente manifestação cultural, mas também uma engrenagem produtiva e instrumento de projeção brasileira internacional.

A economia da cultura deixou de ocupar posição periférica nas análises de desenvolvimento e passou a integrar agendas estratégicas em diversos países. O setor criativo mobiliza cadeias produtivas amplas, que envolvem produção artística, serviços técnicos, indústria têxtil, turismo, transporte, alimentação e comunicação. Durante o período carnavalesco, essa engrenagem se intensifica e concentra fluxos financeiros significativos. O Carnaval funciona, portanto, como catalisador de circulação econômica em curto intervalo de tempo, com efeitos multiplicadores distribuídos.

Foi divulgado com força nas últimas semanas, após o destaque de O Agente Secreto nas premiações, que cada R$ 1 investido em cultura pode gerar R$ 7,59 em retorno para a sociedade, segundo estudos da Fundação Getulio Vargas e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial. Trata-se de um indicador técnico de multiplicador econômico, que mede o impacto indireto e induzido do investimento inicial; esse número desloca a cultura do campo simbólico para uma discussão macroeconômica e, assim, ganha força.

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Quando comparado ao setor automotivo, por exemplo, cujo multiplicador econômico estimado é de R$ 3,76, o contraste não serve para criar hierarquias simplistas entre setores, mas para dimensionar o potencial estratégico da economia criativa. A comparação revela que o investimento cultural possui elevada capacidade de encadeamento produtivo e de geração de renda distribuída, por outro lado, isso exige que o Carnaval seja analisado como ativo estruturante, e não como gasto circunstancial ou momentâneo. 

É necessário que a festa seja uma política pública, que possibilite sua estruturação, proteção simbólica, segurança e alegria para quem participa, pois não se trata apenas de bagunça ou exagero. Trata-se da cultura do Brasil e da história do povo preto, assim como de tantos outros pontos importantes como: política de desenvolvimento, estratégia econômica, crescimento de turismo, e ampliação do soft power nacional, ponto que tem impacto imensurável no mundo globalizado. O debate sobre financiamento e organização do Carnaval precisa, então, ser conduzido com base no que ele também retorna para o País, ou seja, em dados e indicadores, e não apenas em percepções morais ou disputas ideológicas superficiais.

Brasil em destaque: o ativo cultural como ativo estratégico

O Brasil voltou a ocupar espaço relevante no cenário internacional por meio de três frentes articuladas: agenda ambiental, articulação diplomática e projeção cultural. A realização da COP30 em território nacional, a atuação ativa no BRICS e a presença estratégica no G20 indicam um reposicionamento geopolítico. Esse movimento sinaliza uma tentativa de reconstruir credibilidade internacional e ampliar influência nos fóruns multilaterais, essa dimensão simbólica da política externa torna-se, nesse contexto, elemento central.

No campo das Relações Internacionais, esse reposicionamento dialoga diretamente com o conceito de soft power, formulado por Joseph Nye,  e trata-se da capacidade de influenciar decisões e percepções por meio de cultura, valores e reputação, sem recorrer à coerção ou imposição econômica direta. Países que dominam instrumentos culturais e simbólicos ampliam seu poder de barganha em negociações multilaterais, por isso a cultura, nesse sentido, converte-se em ferramenta diplomática.

O Carnaval se insere exatamente nesse eixo estratégico de projeção simbólica, ele mobiliza turismo internacional, projeta imagens do país em transmissões globais e consolida uma identidade associada à criatividade, diversidade e potência artística. Além disso, ativa cadeias econômicas internas que reforçam sua legitimidade como evento estruturante e, seu impacto não é apenas imagético, também econômico e institucional.

Enquanto a Amazônia sustenta o discurso ambiental e fortalece a autoridade brasileira na agenda climática, o Carnaval sustenta o discurso cultural e reafirma o país como referência criativa global. A comparação é estrutural e não meramente retórica: ambos são ativos estratégicos que produzem influência externa, ambos dependem de governança interna consistente para manter credibilidade e sustentabilidade. Essa relação entre ativo simbólico e estratégia nacional impõe responsabilidade política, a projeção internacional baseada em cultura exige coerência da própria população e na forma como esse patrimônio é visto. Não basta utilizar o Carnaval como vitrine externa; é necessário tratá-lo internamente como setor estratégico, com planejamento, transparência e equilíbrio regulatório.

O multiplicador econômico como argumento político

Deputada federal Talíria Petrone (PSOL) destaca estudo que aponta o alto impacto econômico da cultura, afirmando que cada R$ 1 investido pode gerar R$ 7,59 em retorno para a sociedade. Foto: Fala Caio.
Deputada federal Talíria Petrone (PSOL) destaca estudo que aponta o alto impacto econômico da cultura, afirmando que cada R$ 1 investido pode gerar R$ 7,59 em retorno para a sociedade. Foto: Fala Caio.

Talíria Petrone introduz no debate público um elemento frequentemente ignorado nas disputas narrativas sobre o Carnaval: o efeito multiplicador da cultura. Quando o retorno econômico do investimento cultural supera setores industriais tradicionais, o enquadramento da discussão se altera substancialmente. A análise deixa de ser moral ou ideológica e passa a ser técnica e fiscal, assim o foco desloca-se do gasto imediato para o impacto agregado.

Esse dado altera a narrativa recorrente de que o Carnaval “consome recursos públicos” sem contrapartida. O multiplicador demonstra que o investimento inicial desencadeia efeitos indiretos e induzidos, ampliando geração de renda, emprego e arrecadação. Trata-se de dinâmica econômica semelhante à observada em grandes setores produtivos, com a diferença de que a cultura possui maior capilaridade social. 

O Carnaval ativa trabalhadores formais e informais, pequenos empreendedores, ambulantes, técnicos, artistas independentes, costureiras, músicos, produtores culturais, profissionais de audiovisual, segurança e limpeza. Ele amplia demanda por serviços de hospedagem, transporte e alimentação, além de impulsionar comércio local, nessa rede complexa de atividades demonstra que o impacto vai além da avenida ou do bloco.

Em termos macroeconômicos, trata-se de economia criativa com elevada capacidade de circulação monetária e geração de renda distribuída. Em termos fiscais, significa aumento indireto de arrecadação por meio de impostos sobre consumo e serviços. Em termos sociais, significa inclusão produtiva temporária que pode gerar encadeamentos permanentes, por isso o Carnaval deve ser analisado como política econômica setorial, dando robustez para além do aspecto cultural, como já é feito em algumas partes do Brasil.

A discussão central deixa de ser se há investimento público e passa a ser como esse investimento é estruturado, monitorado e redistribuído; o foco estratégico recai sobre eficiência, governança e transparência. Se os indicadores apontam alto retorno agregado, o debate precisa evoluir para a qualidade da gestão e não para a negação do impacto econômico.

Violência, cortes e o manifesto no Carnaval de São Paulo

O desfile do Bloco Tarado Ni Você protagonizou, no último final de semana, um manifesto de dimensão política neste Carnaval ao abrir sua apresentação com faixas afirmando que “sequestraram o Carnaval”. O ato foi uma resposta direta ao modelo de gestão adotado pela Prefeitura de São Paulo, que vem sendo criticado por blocos tradicionais e coletivos independentes, a manifestação colocou no centro do debate a condução orçamentária e administrativa da festa.

A gestão do prefeito Ricardo Nunes reduziu em R$ 12,3 milhões o orçamento destinado à infraestrutura do Carnaval de rua em 2026. O valor caiu de R$ 42,5 milhões em 2025 para R$ 30,2 milhões neste ano, sendo integralmente vinculado a patrocínios. A redução ocorre em um contexto de crescimento contínuo do público nas ruas, o que amplia a pressão sobre estrutura e segurança.

Ontem, 17, foliões e organizadores relatam episódios de repressão e uso de bombas de gás por parte da Guarda Civil Metropolitana, no caso do bloco Vai Quem Qué, no Butantã. Clientes e funcionários de estabelecimentos próximos também teriam sido atingidos. Para os organizadores, a combinação entre redução de apoio estrutural e endurecimento da fiscalização não representa fato isolado, mas sinaliza um processo de precarização.

O manifesto do Tarado Ni Você sintetiza essa insatisfação ao afirmar que há um enfraquecimento deliberado da festa popular gratuita, assim como a importância de proteger a cultura do Carnaval de rua em São Paulo. A crítica aponta que, enquanto cresce a dependência de patrocínio privado e aumenta o controle sobre os blocos, diminui o investimento direto em infraestrutura pública, portanto, ultrapassa a dimensão cultural e passa a envolver escolhas orçamentárias, modelo de gestão urbana e o papel do poder público na preservação do Carnaval de rua.

Fontes |

Fundação Getulio Vargas

Mídia Ninja

Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial

Revista Exame

Metrópoles

BNews São Paulo

FONTE/CRÉDITOS: Caio Andrade - Fala Caio