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O avanço do conflito no Irã iniciado pelos EUA e Israel expandiu-se para toda a região do Golfo Pérsico, o que causou uma reorganização dos fluxos e transporte do petróleo e seus derivados. Essa tensão no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, pressiona mercados e rapidamente se traduz em custo de vida e o preço do barril tem disparado nas últimas semanas. Isso gera um efeito em cadeia que começa nos combustíveis, passa pelo frete e chega aos alimentos e serviços e, no caso do Brasil, onde o transporte é majoritariamente rodoviário e o diesel é base da circulação de mercadorias, esse impacto ganha velocidade e intensidade, pressionando a inflação em um momento em que o Banco Central ainda tenta segurar expectativas. O país até conta com vantagens como o pré-sal e o etanol, mas esbarra em limites estruturais, como a dependência de refino externo e a dificuldade de coordenar política fiscal e monetária em um cenário já pressionado internamente.
No 24º episódio do ExpliCA, do projeto Fala Caio, a economista Natalie Verndl, Doutora em Direito Econômico, Financeiro e Tributário na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e Delegada e Economista do Conselho Regional de Economia de São Paulo (CORECON-SP), entra justamente nesse ponto: como um choque externo se transforma em pressão inflacionária no Brasil, por que o impacto aqui tende a ser mais sensível e o que isso revela sobre o modelo econômico do país. A conversa passa por temas como petróleo, câmbio, Selic e contas públicas, mas sem se perder no técnico, conecta com o cotidiano, do preço do combustível ao custo dos alimentos, e expõe um problema que vai além do momento: a dificuldade de sair de respostas pontuais e avançar para mudanças estruturais.
Ouça o episódio completo pelo Spotify e acompanhe todas as interações no conteúdo a seguir:
Como o Brasil pode se proteger dessas oscilações provocadas por conflitos como o do Irã?
Natalie Verndl (CORECON-SP): Essa é a pergunta central, porque estamos lidando com um cenário de escassez global. O petróleo é um recurso finito e a economia, por definição, trata da alocação de recursos escassos. Quando você tem um choque geopolítico como esse, o mercado reage imediatamente. Hoje, o barril de referência, o Brent, já ultrapassa projeções de 100 dólares, com estimativas que chegam a 120, 150 e até 200 dólares em cenários mais extremos, segundo bancos internacionais. Existe uma preocupação real com a oferta global.
O Brasil tem uma condição relativamente favorável por conta do pré-sal e do uso do etanol como alternativa. Mas isso não resolve o problema estrutural. A gente não tem capacidade de refino suficiente. O que acontece é que exportamos petróleo bruto e depois importamos ele refinado, com maior valor agregado, porque falta tecnologia e estrutura industrial para processar internamente.
Então, mesmo sendo produtor, continuamos dependentes. No curto prazo, o etanol pode aliviar um pouco, mas não substitui o diesel. E o diesel é a base do transporte no Brasil. Como nossa logística é majoritariamente rodoviária, qualquer aumento nesse combustível se espalha rapidamente pela economia. Além disso, já estamos vendo repasses ao consumidor. Houve tentativa de segurar preços com subsídios, mas isso inevitavelmente chega na ponta. E quando o preço sobe, você tem um efeito adicional: as pessoas correm para consumir mais daquele recurso, o que torna ele ainda mais escasso. É um ciclo difícil de conter.
Esse aumento tende a se espalhar pela economia ou fica restrito aos combustíveis?
Natalie Verndl (CORECON-SP): Ele se espalha completamente. O petróleo está em toda a cadeia produtiva. Não é só combustível. Ele está no plástico, nas embalagens, no transporte, na produção industrial. Então o impacto vai muito além do posto de gasolina. Ele chega nos alimentos, nos serviços, nos custos logísticos. É por isso que a gente fala em inflação, aumento contínuo e generalizado de preços, não apenas pontual.
Existe até uma comparação com a crise do petróleo dos anos 70, mas com diferenças importantes. Naquela época, havia um controle mais direto da oferta por cartel. Hoje, o cenário envolve guerra, instabilidade geopolítica e múltiplos fatores ao mesmo tempo. E o mercado já reage a isso. A gente vê variações fortes, não só na América Latina, mas também nos Estados Unidos, com oscilações entre picos e quedas. Isso mostra o nível de incerteza.
Como entram fatores internos, como inflação, Selic e PIB, nesse cenário?
Natalie Verndl (CORECON-SP): A economia está no dia a dia das pessoas, mas a linguagem técnica muitas vezes distancia esse entendimento. O PIB, por exemplo, é a soma de tudo que o país produz, consumo, investimento, gasto do governo e balança comercial. Isso é o que estrutura a atividade econômica. A inflação é o aumento contínuo e generalizado dos preços. E o Banco Central atua sobre isso principalmente com a taxa Selic.
A lógica é simples: a taxa de juros remunera o dinheiro no tempo. Se você deixa de consumir hoje e investe, você é remunerado por isso no futuro. Quando os juros sobem, consumir fica mais caro e investir fica mais atrativo. Quando caem, o consumo é estimulado. O problema é que isso não funciona isoladamente. Se você não tem equilíbrio fiscal, se o governo continua gastando muito, a inflação volta. O governo também emite moeda, também pressiona o sistema. Então hoje a gente tem uma dificuldade grande de coordenação entre política monetária e fiscal. O mercado já antecipa, inclusive, o estouro da meta de inflação, porque não é só o choque externo, o cenário interno também pesa.
Existe um conflito entre manter gastos sociais e equilibrar as contas públicas?
Natalie Verndl (CORECON-SP): Existe, e ele é muito complexo.
Programas sociais são necessários para garantir condições mínimas de sobrevivência. Mas eles precisam caber no orçamento. Se você não tem arrecadação suficiente, precisa reduzir gastos ,e isso é extremamente sensível, principalmente em contexto eleitoral. O Brasil tem um modelo de estado de bem-estar social, mas sem a mesma estrutura de países como Suécia ou Finlândia, onde há retorno mais claro do que é arrecadado.
Além disso, nosso sistema tributário é regressivo. Ele incide muito sobre consumo, o que penaliza quem ganha menos. Houve discussão sobre migrar para um modelo mais progressivo, mas isso não foi implementado de forma efetiva. Hoje, muitas vezes, se tenta resolver aumentando arrecadação, criando novas taxas, sem rever o modelo. E isso tem limite. Existe até o conceito da Curva de Laffer, que mostra que há um ponto ótimo de tributação, depois disso, aumentar imposto reduz eficiência e crescimento.
O Brasil tem hoje um modelo econômico claro para enfrentar esse cenário?
Natalie Verndl (CORECON-SP): Esse é um dos pontos mais preocupantes: não há um modelo claro. O debate econômico no Brasil é muito conjuntural. É o preço do combustível, do tomate, da inflação do mês. Mas isso não resolve o problema de crescimento e desenvolvimento. Falta um projeto de longo prazo. Nem governo nem oposição apresentam uma proposta consistente de transformação estrutural da economia. Em ano eleitoral, isso fica ainda mais evidente. As decisões são voltadas ao curto prazo, ao que gera resultado imediato, inflação, emprego, porque isso influencia diretamente o resultado político.
Como o Brasil se posiciona diante do cenário internacional e das mudanças nas relações globais?
Natalie Verndl (CORECON-SP): É fundamental ter múltiplos parceiros comerciais. Hoje existe uma preocupação dos Estados Unidos com a perda de hegemonia do dólar. Movimentos como os do BRICS, com transações fora do sistema tradicional, preocupam porque mexem nessa estrutura global. Os Estados Unidos têm o que chamamos de “privilégio exorbitante”: conseguem se endividar na própria moeda. Outros países não têm essa vantagem. O Brasil precisa aproveitar esse cenário para diversificar parcerias, mas não só isso. Precisa investir em tecnologia e produzir bens com maior valor agregado. Hoje ainda somos muito dependentes de commodities. Sem isso, continuamos vulneráveis a choques externos.
Existem oportunidades para o Brasil em meio a esse cenário?
Natalie Verndl (CORECON-SP): Existem, mas passam por organização interna. Antes de olhar para fora, o Brasil precisa colocar a casa em ordem. Investir em refino, em indústria, em tecnologia. É um país com muitos recursos, mas que não transforma isso em valor agregado. A crise mostra onde estão as fragilidades. E uma delas é clara: falta investimento interno consistente. Outro ponto essencial é a educação. Sem isso, não há avanço tecnológico, não há aumento de produtividade e não há mudança estrutural.
O que esperar das próximas semanas?
Natalie Verndl (CORECON-SP): A tendência ainda é de instabilidade. Não estamos lidando só com guerra. É um cenário que envolve também eleição, política fiscal, inflação e mercado internacional. É muita variável ao mesmo tempo. Então não é algo que se resolve rapidamente. O acompanhamento precisa ser constante, semana a semana. A recomendação é cautela. Tanto para o governo quanto para a população. Decisões precipitadas podem agravar ainda mais o cenário.
Veja o vídeo disponível no perfil do Fala Caio, no Instagram, sobre o assunto:
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