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A aprovação nesta segunda-feira, 12, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de uma nova indicação para o medicamento Sunlenca, à base de lenacapavir, marca um avanço relevante nas estratégias de prevenção ao HIV no Brasil. A Anvisa autorizou o uso do fármaco como profilaxia pré-exposição (PrEP), ampliando oficialmente as ferramentas da chamada prevenção combinada. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União e repercutiu entre especialistas e organizações que acompanham a resposta brasileira à epidemia.
O lenacapavir poderá ser utilizado por adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 quilos, desde que apresentem teste negativo para HIV antes do início do uso. Seu principal diferencial está no regime de aplicação: uma injeção administrada apenas duas vezes ao ano. A proposta é enfrentar um dos maiores desafios da PrEP diária, a adesão contínua ao medicamento, especialmente entre jovens, pessoas trans, populações negras e pessoas em contextos de maior vulnerabilidade social.
Apesar da aprovação sanitária, o Sunlenca ainda não está disponível no país. Antes de chegar ao mercado, o medicamento precisa ter seu preço máximo definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Para uma eventual incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), o processo ainda passará pela avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e por decisão final do Ministério da Saúde. Entidades da sociedade civil avaliam que a entrada dessa tecnologia no SUS pode ser estratégica para reduzir desigualdades no acesso à prevenção, em um país que segue registrando milhares de novos casos de HIV todos os anos.

O Dezembro Vermelho é uma campanha nacional instituída pela Lei nº 13.511/2017, focada na prevenção do HIV/Aids e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). A mobilização ocorre em alusão ao 1º de dezembro, o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Foto: Ministério da Saúde.
A luta pelo direito à saúde no Brasil: O controle do HIV nas últimas décadas
A resposta brasileira ao HIV e à AIDS começou a ser construída nos anos 1980, quando os primeiros casos surgiram em meio ao desconhecimento científico, ao medo e a um forte estigma social ligado à população LGBT+ da época. Naquele período, não havia tratamento eficaz, e o diagnóstico estava associado a altas taxas de mortalidade. A atuação inicial do Estado se concentrou em vigilância epidemiológica e campanhas de prevenção, enquanto movimentos sociais e organizações da sociedade civil passaram a pressionar por políticas públicas e acesso à saúde.
A principal virada ocorreu na década de 1990. Em 1996, o Brasil aprovou a lei que garantiu o acesso universal e gratuito aos medicamentos antirretrovirais pelo SUS. A introdução da terapia antirretroviral combinada transformou o curso da epidemia no país. O HIV deixou de ser uma sentença de morte e passou a ser tratado como uma condição crônica, com queda significativa de óbitos, internações e infecções oportunistas. Mesmo com o preconceito latente em diversas camadas da sociedade e a desinformação persistir até hoje, nesse momento, avanços estruturais passaram a ser conquistados.
Nos anos 2000, o país ampliou o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, descentralizou serviços e enfrentou disputas internacionais envolvendo patentes de medicamentos para assegurar preços mais baixos. Essa política consolidou o Brasil como referência internacional em saúde pública e no enfrentamento ao HIV. Agora, em 2026 mais uma parte dessa história começa a se fortalecer no sistema de saúde pública brasileiro, cuja universalidade de tratamentos e acesso é o pilar central.

Américo Nunes é ativista, homem vivendo com HIV e fundador do Instituto Vida Nova em maio de 2000. Desde então o Vida Nova vem atuando nas áreas de atenção às pessoas vivendo com HIV/AIDS e prevenção. O Vida Nova é considerado o trabalho mais importante que a Zona Leste recebeu contra o crescimento do HIV na cidade de São Paulo. Foto: Fala Caio.
O que o SUS oferece hoje em tratamento e prevenção
Atualmente, o Sistema Único de Saúde oferece tratamento antirretroviral a todas as pessoas que vivem com HIV, independentemente da fase da infecção. Os esquemas terapêuticos evoluíram ao longo do tempo e hoje são mais eficazes, com menos efeitos colaterais e, em muitos casos, concentrados em um único comprimido diário. Esses medicamentos impedem a multiplicação do vírus no organismo. Quando o tratamento é seguido corretamente, a carga viral se torna indetectável, o que preserva o sistema imunológico e impede a transmissão do HIV por via sexual, consolidando o princípio de que indetectável é igual a intransmissível.
O Brasil adota a estratégia de testar e tratar, permitindo o início imediato do tratamento após o diagnóstico. Essa abordagem melhora a qualidade de vida das pessoas e atua como uma ferramenta de saúde coletiva, ao reduzir a circulação do vírus na população. Dados do Ministério da Saúde indicam avanços importantes no diagnóstico e no acompanhamento das pessoas que vivem com HIV, aproximando o país de metas globais estabelecidas pelas Nações Unidas.
No campo da prevenção, o SUS oferece a profilaxia pré-exposição em comprimidos de uso diário para pessoas sem HIV que apresentam maior risco de exposição. Quando utilizada corretamente, a PrEP reduz de forma significativa a chance de infecção. O número de usuários dessa estratégia cresceu de forma consistente nos últimos anos, ampliando também a testagem regular para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.
Outra ferramenta fundamental é a profilaxia pós-exposição, a PEP, que é indicada em situações de possível contato recente com o vírus. Em casos de relações sexuais desprotegidas, violência sexual ou acidentes com material biológico, a PEP deve ser iniciada em até 72 horas após a exposição e é utilizada por 28 dias como medida de emergência para evitar a infecção.

Fluxograma que orienta profissionais de saúde sobre quando indicar a PEP, desde a exposição ao HIV até a testagem, prazos, critérios de uso e encaminhamentos para prevenção ou tratamento. Foto: Ministério da Saúde.
Avanços científicos, estigma e alertas globais
Apesar dos avanços no tratamento e na prevenção, o estigma ainda segue como um obstáculo central no enfrentamento ao HIV. Uma pesquisa divulgada pela Agência Brasil mostrou que 52,9% das pessoas que vivem com HIV no país já sofreram algum tipo de discriminação ao longo da vida por causa da condição sorológica. Esse cenário afeta o acesso aos serviços de saúde, o diagnóstico precoce e a adesão ao tratamento, além das barreiras no mercado de trabalho e na construção de relacionamentos amorosos.
A sorofobia é o termo que define o preconceito e a discriminação contra pessoas que vivem com HIV (PVHIV); e para muitos falar abertamente ou comunicar a respeito reflete a desconstrução do isolamento e vergonha. A comunidade LGBT+ sempre foi alvo de ataques, mas essa é uma questão de saúde pública que engloba homens e mulheres heterossexuais, engloba formas de maternidade, entre outros grupos. Esse preconceito também chega ao mercado de trabalho, refletido em barreiras invisíveis em oportunidades profissionais, demissões veladas e estagnação profissional. Em relacionamentos aparecem traços de exaustão mental, a fragilização da autonomia, segurança e na própria identidade.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), se os esforços globais de prevenção e tratamento não forem intensificados, até 4 milhões de pessoas podem morrer de AIDS até 2030 ao redor do mundo. O dado reforça que, mesmo com os avanços científicos, o enfrentamento da epidemia depende de decisões políticas, financiamento contínuo e políticas públicas sustentadas, assim como na divulgação de informações verificadas e inclusivas.
Fontes
Agência Brasil
Agência Aids
Ministério da Saúde
Anvisa
Organização das Nações Unidas
Organização Mundial da Saúde
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