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A misoginia não aparece do nada, ela se reorganiza ao mudar de linguagem, de espaço, de estratégia, e hoje circula com força nas redes, nos discursos políticos e no cotidiano. A aprovação, no Senado, do projeto que equipara a misoginia ao crime de racismo tenta responder a esse cenário com um recado institucional mais duro: discurso de ódio contra mulheres não é opinião, é violência e precisa ser tratado como tal. A proposta amplia a responsabilização, inclusive no ambiente digital, mas ainda esbarra no desafio central de sempre, transformar lei em prática num país onde a violência de gênero é recorrente e, muitas vezes, relativizada.
No 23° episódio do ExpliCA, do projeto Fala Caio, a professora e pesquisadora Marcia Tavares entra justamente nesse ponto: o que está por trás desse aumento de violência, por que ele não é desconectado da estrutura da sociedade e como o ambiente digital potencializa esse processo. A conversa passa por conceitos como patriarcado e feminismo, mas sem ficar no raso, conecta com a realidade, da sub-representação política à atuação de grupos como redpill e incel, e aponta um caminho que não depende só de lei: educação, responsabilização e disputa de narrativa.
Ouça o episódio completo pelo Spotify e acompanhe todas as interações no conteúdo a seguir:
Pergunta 1: O que você considera hoje mais perigoso e alarmante nesse cenário de violência contra mulheres, seja no campo digital, institucional ou nos casos recentes que temos acompanhado?
Marcia Tavares (PPGNEIM/UFBA): Nós estamos vivendo um momento que é profundamente paradoxal. Ao mesmo tempo em que as mulheres conquistaram inúmeros espaços , no mercado de trabalho, na política, nas universidades, essa presença e essa autonomia passam a incomodar uma sociedade que ainda se estrutura na dominação masculina. Quando a gente olha os dados, por exemplo, a gente percebe que a mulher continua recebendo menos que os homens, e a mulher negra ainda menos que todos os outros grupos. Isso mostra que essa estrutura não foi rompida.
Então, o que acontece hoje é uma reação. Há uma retomada de valores neoconservadores justamente porque essas mudanças ameaçam uma lógica histórica de poder. E essa reação se manifesta de forma violenta. A mulher ainda é vista como propriedade. Quando ela exerce autonomia, quando ela decide, quando ela fala, isso gera enfrentamento. E essa violência não está restrita ao ambiente doméstico, ela aparece nas mais diferentes instâncias: na política, na mídia, nas redes sociais.
Hoje, o meio virtual potencializa isso. Ele é usado para práticas como pornografia de vingança, para exposição de intimidade, para destruição da imagem das mulheres. E o mais grave é que ainda temos muita dificuldade de construir instrumentos legais e institucionais que deem conta de proteger essas mulheres. Então, o que me parece mais alarmante é justamente essa combinação: avanço de direitos de um lado e, do outro, uma reação violenta, organizada e cada vez mais naturalizada.
Pergunta 2: Como podemos explicar, de forma mais acessível, o que é patriarcado e como ele opera na sociedade?
Marcia Tavares (PPGNEIM/UFBA): O patriarcado é, essencialmente, uma estrutura de dominação masculina que foi sendo construída historicamente e que continua sendo reproduzida de geração em geração. Ele define que existem papéis distintos para homens e mulheres e estabelece limites muito claros sobre o que a mulher pode ou não pode fazer.
Isso não está só nas leis ou nas instituições, está no cotidiano. Está na família, na forma como as crianças são educadas, nas músicas que a gente ouve, nas novelas, nos discursos que circulam. É essa lógica que naturaliza, por exemplo, a ideia de que a mulher é frágil, que ela precisa ser protegida, que ela deve se comportar de determinada forma.
E isso vai além: o patriarcado trabalha com a ideia de posse. A mulher é objetificada, ela deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser vista como algo que pertence ao homem. Então, quando essa mulher rompe com isso, quando ela denuncia, quando ela se posiciona, quando ela quer ser dona da própria vida, isso entra em choque com essa estrutura.
E é nesse contexto que surgem também reações organizadas, inclusive no ambiente digital, que tentam deslegitimar essas mulheres, colocando elas como desviantes, como pessoas que estariam indo contra uma suposta moral. Tudo isso faz parte da manutenção dessa lógica patriarcal.
Pergunta 3: E o feminismo, como ele entra nesse cenário e por que ainda é tão distorcido?
Marcia Tavares (PPGNEIM/UFBA): O feminismo, na verdade, é constantemente colocado como algo negativo, como uma ameaça. Mas ele é exatamente o contrário disso. O feminismo é a luta por direitos, por justiça, por igualdade.
Se a gente olhar historicamente, muitas das coisas que hoje parecem naturais , como a mulher poder estudar, trabalhar, votar , foram conquistas do movimento feminista. Houve um tempo em que a mulher precisava de autorização do marido para viajar, por exemplo. Isso não está tão distante assim.
Então, quando alguém diz “eu não sou feminista”, muitas vezes não percebe que está se beneficiando diretamente dessas conquistas. O feminismo não é o oposto de nada, ele não é uma inversão de poder. Ele é a defesa de que as mulheres possam ser livres, possam decidir sobre suas vidas e tenham acesso aos mesmos direitos.
Claro que existem diferentes correntes, diferentes formas de pensar dentro do feminismo, mas todas partem de um ponto comum: a busca por igualdade e por justiça social. O problema é que, como essa luta mexe com estruturas de poder, ela incomoda , e, por isso, é constantemente distorcida.
Pergunta 4: Como a baixa representatividade feminina na política impacta a forma como esses temas são tratados?
Marcia Tavares (PPGNEIM/UFBA): A sub-representação das mulheres na política tem efeitos muito concretos. Primeiro porque significa menos vozes defendendo essas pautas. Mas também porque revela como a sociedade ainda não reconhece plenamente a mulher como sujeito político.
Muitas vezes, a mulher que chega a esses espaços está ali vinculada a uma figura masculina , é a esposa, a filha, alguém que ocupa aquele lugar em função de um homem. Isso reforça a ideia de que ela não tem autonomia própria.
E quando essa mulher rompe com esse papel, quando ela assume uma postura mais firme, mais incisiva, ela é rapidamente desqualificada. Dizem que ela é agressiva, que ela é “masculina”, como se houvesse um padrão aceitável de comportamento feminino.
Isso impacta também a forma como a mídia trata esses temas. Muitas vezes, a violência contra a mulher é apresentada como algo isolado, sem conexão com uma estrutura maior. Há uma espetacularização do crime, mas não uma discussão profunda sobre as causas. E isso contribui para que o problema continue sendo tratado de forma superficial.
Pergunta 5: Por que a sociedade ainda tende a tratar esses casos como exceções, como “monstruosidades”?
Marcia Tavares (PPGNEIM/UFBA): Porque isso é mais confortável. Quando você transforma o agressor em um “monstro”, você tira o problema da estrutura e coloca no indivíduo. Isso impede que a gente enfrente as causas reais.
A sociedade reage com indignação momentânea, mas não promove mudanças efetivas. E existe também uma conivência. Quando o agressor é alguém próximo, muitas vezes a família ou o entorno tentam justificar, minimizar, explicar.
Só que não há justificativa. O que existe é uma reprodução contínua de valores que colocam a mulher em posição de submissão. E enquanto isso não for enfrentado de forma estrutural , com educação, políticas públicas e mudança cultural , esses casos vão continuar acontecendo.
Não basta se indignar, é preciso transformar.
Pergunta 6: Como você vê a questão da interseccionalidade dentro do feminismo, especialmente em relação a mulheres trans e outros grupos mais vulnerabilizados?
Marcia Tavares (PPGNEIM/UFBA): O feminismo não é único, ele é múltiplo. E isso é fundamental. Durante muito tempo, o movimento foi centrado em uma mulher branca, de classe média, e isso não contemplava outras realidades.
Mulheres negras, por exemplo, sempre trabalharam, então suas demandas eram diferentes. Mulheres lésbicas, mulheres trans, cada grupo traz experiências específicas que precisam ser consideradas.
Hoje, a gente entende que não existe uma única forma de ser mulher. Ser mulher é também uma construção social, atravessada por classe, raça, orientação sexual, identidade de gênero.
Existem correntes que resistem a isso, que excluem, mas eu entendo que o movimento precisa ser inclusivo. O objetivo é comum: lutar por igualdade, por justiça e, principalmente, pelo direito de existir e viver com dignidade.
No caso das mulheres trans, por exemplo, a vulnerabilidade é extrema. É um grupo que sofre violências sucessivas e tem uma expectativa de vida muito baixa. Ignorar isso dentro do feminismo é ignorar uma das expressões mais duras da desigualdade.
Pergunta 7: Qual o papel das plataformas digitais nesse cenário? Elas devem ser responsabilizadas?
Marcia Tavares (PPGNEIM/UFBA): Eu acredito que sim. A internet ainda opera com pouca regulação, e isso permite que muitas pessoas se sintam autorizadas a agredir, a expor, a violentar o outro.
O anonimato cria uma falsa sensação de liberdade, mas essa liberdade tem sido usada para machucar. E isso tem um impacto muito forte, especialmente entre jovens, que ainda estão em formação e muitas vezes não têm o suporte necessário para lidar com isso.
As plataformas não podem se eximir dessa responsabilidade. Elas precisam criar mecanismos mais eficazes de controle, de denúncia, de responsabilização. Porque hoje, da forma como está, o ambiente digital acaba sendo um espaço de reprodução e amplificação dessas violências.
Pergunta 8: Qual é o caminho possível para enfrentar esse cenário e ampliar essa discussão na sociedade?
Marcia Tavares (PPGNEIM/UFBA): O caminho passa, necessariamente, pela educação e pelo diálogo. A gente precisa começar dentro de casa, na forma como educa meninos e meninas, e seguir nas escolas, nas universidades e na mídia.
Discutir gênero não é algo secundário, é algo que atravessa todas as dimensões da vida social. E isso precisa estar presente em diferentes áreas, no direito, na saúde, na educação, para que as pessoas sejam tratadas com respeito e dignidade.
Além disso, é fundamental investir em políticas públicas que não sejam apenas paliativas, mas estruturais. Essas questões precisam estar integradas em diferentes políticas, não apenas em programas específicos para mulheres.
Enquanto isso não acontecer, a violência vai continuar, e as desigualdades também. Porque, no fundo, a gente está falando de uma disputa por poder, por privilégios. E abrir mão desses privilégios é algo que a sociedade ainda resiste em fazer.
Veja o vídeo disponível no perfil do Fala Caio, no Instagram, sobre o assunto:
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