.

A possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções brasileiras como organizações terroristas ganhou força após declarações recentes do governo americano e abriu uma nova frente de tensão diplomática envolvendo segurança pública, soberania e geopolítica, agora com foco no Brasil. A discussão envolve diretamente as organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), duas daos principais facções do país, cuja atuação se expandiu nas últimas décadas para redes internacionais de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e rotas logísticas que atravessam a América do Sul.

Esse tema passou a ocupar o debate internacional quando Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, considerou a tratar as facções como um problema de segurança regional, não apenas como fenômeno criminal doméstico brasileiro, desde uma atuação inicial de Eduardo Bolsonaro, foragido da justiça brasileira e ex-deputado federal em 2025. Essa mudança de enquadramento, aparentemente técnica, altera a lógica com que Washington pode lidar com o problema e cria um novo tipo de pressão diplomática sobre o Brasil, especialmente em um momento de instabilidade internacional e de reorganização das estratégias de segurança no continente.

Mesmo o cerne dessa discussão não ser recente, a declaração de Rubio ao responder a questionamentos da imprensa sobre a possibilidade de Washington enquadrar facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras gera atrito. A manifestação foi enviada por escrito a jornalistas que investigavam o tema e acabou reproduzida por diversos veículos e no posicionamento oficial, Rubio afirmou: “Os Estados Unidos veem as organizações criminosas do Brasil, incluindo PCC e CV, como ameaças significativas à segurança regional devido ao seu envolvimento em tráfico de drogas, violência e crime transnacional. Não comentamos previamente possíveis designações de organizações como terroristas. Estamos plenamente comprometidos em tomar as medidas apropriadas contra grupos estrangeiros que se envolvem em atividades terroristas.” A resposta não confirmou a classificação formal das facções como terroristas, mas deixou claro que o tema está sendo tratado dentro da lógica de segurança internacional adotada pelo governo americano.

Publicidade
Publicidade

Declaração do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao comentar a atuação de facções brasileiras e a possibilidade de Washington classificá-las como organizações terroristas. Foto: Fala Caio
Declaração do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao comentar a atuação de facções brasileiras e a possibilidade de Washington classificá-las como organizações terroristas. Foto: Fala Caio

Essa mudança de enquadramento não é apenas semântica, no sistema jurídico dos Estados Unidos, quando um grupo é classificado como Foreign Terrorist Organization, o governo passa a ter instrumentos muito mais amplos para agir, incluindo bloqueio de ativos financeiros, sanções contra indivíduos e empresas que mantenham relações com a organização e restrições automáticas a transações que passem pelo sistema financeiro americano, que continua sendo o principal eixo das operações globais em dólar. Na prática, isso cria um mecanismo de pressão internacional que ultrapassa as fronteiras do país onde o grupo atua, já que bancos e governos ao redor do mundo passam a cooperar com as medidas para evitar punições do sistema financeiro americano.

Outro elemento relevante envolve a possibilidade de ações extraterritoriais, pois a legislação antiterrorismo dos Estados Unidos permite que operações de inteligência, cooperação policial ampliada e medidas de segurança internacional sejam justificadas com base na presença de organizações classificadas como terroristas. Esse tipo de enquadramento já foi utilizado em diferentes regiões do mundo para legitimar operações fora do território americano, o que explica parte da preocupação de autoridades brasileiras com o debate. Ao transformar o crime organizado brasileiro em tema de segurança internacional, Washington amplia sua margem de atuação e passa a tratar a questão dentro de uma lógica estratégica que vai além das políticas domésticas de segurança pública.

Ano eleitoral e o risco de interferência política indireta

A discussão acende um alerta diante do ciclo eleitoral que se aproxima nos próximos meses no Brasil, período em que o ambiente político costuma ser marcado pela centralidade do tema da segurança pública. Quando um problema interno passa a ser enquadrado internacionalmente como questão de terrorismo, a narrativa política sobre o tema tende também a se reorganizar dentro do país. Essa mudança circunstancial costuma criar novos pontos de polarização em um cenário político ainda instável do ponto de vista institucional, após a fragilização durante a gestão de Jair Bolsonaro, atualmente preso na Papudinha em Brasília.

Essa mudança de narrativa pode influenciar o debate político interno de forma direta, porque altera os parâmetros com que o problema é discutido dentro do país. Ao tratar facções brasileiras como ameaça regional, autoridades americanas contribuem para reforçar a ideia de que o crime organizado no Brasil ultrapassou as fronteiras nacionais e passou a representar risco estratégico para o continente. Em contextos eleitorais, esse tipo de narrativa costuma fortalecer discursos políticos mais duros na área de segurança pública e pressionar governos a adotar respostas mais militarizadas ou centralizadas.

O histórico latino-americano também é vasto ao mostras como a associação entre narcotráfico e terrorismo frequentemente altera agendas políticas e reorganiza disputas internas de poder. Em alguns países da região, a adoção do conceito de narcoterrorismo foi acompanhada por mudanças legislativas profundas, aumento da presença militar em operações de segurança e ampliação de cooperação direta com agências americanas. A preocupação de parte da diplomacia brasileira está justamente no fato de que a internacionalização do tema pode produzir efeitos políticos internos em um momento de intensa disputa eleitoral.

Esse receio se intensifica quando se observam precedentes recentes na política externa dos Estados Unidos na América Latina recentemente. O debate em Washington sobre classificar organizações criminosas estrangeiras como grupos terroristas já foi utilizado no caso da Venezuela, quando o governo americano passou a enquadrar o chamado Cartel de los Soles como organização terrorista e ampliou sanções contra o entorno político do presidente Nicolás Maduro. A medida elevou o nível de pressão diplomática e inseriu o combate ao narcotráfico dentro de uma estratégia mais ampla de enfrentamento político ao governo venezuelano.

No Brasil, a discussão também passou a ser novamente mobilizada por personalidades da extrema-direita, já que a pauta é defendida por setores do bolsonarismo de uma forma midiática. Eesse enquadramento possibilita um ganho de popularidade com o núcleo duro de eleitores bolsonaristas e outros grupos da sociedade que sofrem diretamente com essa mazela. Ao transformar facções brasileiras em alvo potencial da legislação antiterrorismo estadunidense, o tema deixa de se limitar à esfera de segurança e passa a integrar uma agenda mais ampla internacional, com impactos diretos sobre o ambiente político e diplomático do Brasil.

Irã, petróleo e a centralidade estratégica do Brasil

A discussão sobre facções brasileiras também precisa ser observada dentro de um cenário internacional mais amplo, marcado pelo aumento das tensões no Oriente Médio e pelas disputas em torno da segurança energética global. A instabilidade envolvendo o Irã e seus desdobramentos regionais recolocou o tema do petróleo no centro das estratégias das grandes potências, especialmente em um momento em que rotas marítimas estratégicas e cadeias de abastecimento voltaram a ser tratadas como questões de segurança internacional.

Na entrevista concedida ao episódio da semana passada do quadro ExpliCA, o geógrafo especialista em política internacional e professor de pós-graduação da PUC Minas, Jorge Mortean, destacou que disputas geopolíticas contemporâneas frequentemente orbitam a segurança energética e a competição por recursos estratégicos, além de envolverem outros países indiretamente, como a China e a Rússia. Como sintetizou durante a conversa, “EUA e China são ambas economias que consomem muito mais petróleo do que os seus próprios países produzem, qualquer poço de petróleo ao redor do mundo vai ser um campo de batalha”, disse Mortean. Essa competição por recursos energéticos tende a transformar regiões produtoras em espaços permanentes de disputa estratégica entre grandes potências, é então nesse xadrez que o Brasil entra.

Nesse contexto, além do Brasil ocupa uma posição cada vez mais relevante no mapa energético mundial, já que o avanço da exploração do pré-sal transformou o país em um dos maiores produtores de petróleo do planeta, ele também ampliou sua importância nas discussões sobre estabilidade internacional. Em cenários sensíveis no Oriente Médio, como o que acontece após ataques arbitrários dos EUA e de Israel contra o Irã, os países capazes de ampliar ou garantir fornecimento de petróleo, fora da zona de transporte do estreito de Ormuz, passam a ter peso estratégico adicional nas relações internacionais.

Ainda na mesma análise, Mortean observa que a própria permanência de ameaças regionais, no caso do Irã à Israel, pode funcionar como instrumento de barganha diplomática e política, uma vez que conflitos prolongados mantêm ativa a dinâmica de alianças militares, ampliam investimentos em armamentos e reforçam interesses energéticos globais ligados à instabilidade da região. Nesse cenário, a existência de tensões permanentes acaba sendo incorporada como parte do equilíbrio geopolítico, já que diferentes atores estatais e econômicos passam a operar estrategicamente em torno dessas crises.

Fumaça sobe após ataque à refinaria de petróleo da Bapco em Sitra, no Bahrein, em 9 de março de 2026. — Foto: Stringer | Reuters.
Fumaça sobe após ataque à refinaria de petróleo da Bapco em Sitra, no Bahrein, em 9 de março de 2026. Foto: Stringer | Reuters.

Assim, a reorganização das disputas energéticas e estratégicas entre o mundo, o Brasil e a América Latina, com destaque também para a Venezuela, voltam a ganhar relevância no cálculo geopolítico das grandes potências. Por essa razão, alguns analistas interpretam a pressão diplomática envolvendo o enquadramento das facções brasileiras como parte de um movimento geopolítico mais amplo. Ao reforçar sua presença política e estratégica na América Latina sob a justificativa de combater o crime transnacional, Washington mantém influência direta sobre uma região que combina grandes reservas energéticas, rotas logísticas importantes e crescente peso econômico global.

De forma geral, no tabuleiro internacional, o debate sobre o crime organizado brasileiro acaba se conectando a disputas maiores que envolvem segurança, energia e influência política. Enquanto a atenção pública se concentra no enquadramento das facções como ameaça regional, o pano de fundo envolve também a reorganização das prioridades estratégicas dos Estados Unidos em um momento de tensões internacionais crescentes e de disputa por recursos energéticos em escala global.

Fontes |

Metrópoles

Brasil 247

Brasil de Fato

G1

R7

Gazeta do Povo

SBT News

CNN Brasil

InfoMoney

Portal da Universidade de Brasília (UnB) – Petrel / estudos sobre crime e terrorismo

SP Diário

GP1

Diário da Capital

Times Brasil

FONTE/CRÉDITOS: Caio Andrade - Fala Caio