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Nos últimos anos, a indústria global de wellness deixou de ser apenas um movimento ligado ao autocuidado para se consolidar como uma das forças mais lucrativas do mercado mundial. Segundo o Global Wellness Institute, o setor saltou de US$ 4,6 trilhões em 2020 para US$ 6,3 trilhões em 2023, com projeções que ultrapassam os US$ 7 trilhões em 2025 e podem chegar a US$ 9 trilhões até 2028. O crescimento expressivo reflete não apenas o interesse por saúde e qualidade de vida, mas também a intensificação de uma pressão social por corpos considerados “ideais”, otimizados e, muitas vezes, irreais.
Entre academias lotadas, suplementos, clínicas estéticas e novas drogas de emagrecimento, o conceito de saúde passou a se confundir com o de performance. A promessa de transformação rápida e visível virou produto e movimenta bilhões de dólares por ano. “Quando falamos do que é divulgado nas redes sociais, estamos falando muito mais de performance do que de saúde”, alerta André Higarashi, fisioterapeuta e sócio-especialista da Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva (SONAFE) . “O esporte de alto rendimento tem um lado obscuro, com uso de substâncias e abusos farmacológicos. O problema é quando isso é visto como vida ideal e as pessoas tentam reproduzir fora desse contexto e sem o acompanhamento adequado”, completa Higarashi.

André Higarashi em palestra no Arnolds Sports Festival 2025, Las Vegas (EUA). Foto: Acervo pessoal, André Higarashi.
O corpo como negócio: a estética da performance
O uso de esteroides anabolizantes androgênicos (AAS), antes restrito ao fisiculturismo profissional, se espalhou entre frequentadores de academias e influenciadores digitais de forma descontrolada. Pesquisas científicas apontam crescimento do consumo entre homens jovens e também entre mulheres, muitas vezes sem qualquer acompanhamento médico, mas influenciados por personalidades digitais. As consequências vão além do ganho muscular com consequências sérias e conhecidas entre praticantes do fisiculturismo, por exemplo: riscos cardiovasculares, hepáticos, hormonais e psiquiátricos, além de casos de dependência associada ao uso contínuo.
No Brasil, uma pesquisa em 2014 já apontava a prevalência de uso de esteroides anabolizantes em praticantes de atividades físicas no Brasil, a qual variava de cerca de 2,1% a 31,6%, dependendo da região e do tipo de amostra; considerando um período com pouca influência digital. Hoje, impulsionada por redes sociais que divulgam protocolos “milagrosos” e transformações rápidas, esse número pode ser mais amplo do que se imagina. Para Higarashi, esse processo gera uma falsa percepção de segurança. “O músculo responde rápido, mas articulações e tendões não acompanham essa evolução acelerada. A força aumenta, mas o corpo estrutural não sustenta, e as lesões aparecem. O alto rendimento cobra um preço.”

Miguel Mendonça, atleta de fisiculturismo, no palco da Muscle Contest Maringá (2025). Foto: Acervo pessoal, Miguel Mendonça.
A normalização do uso de substâncias também é observada dentro do próprio meio esportivo. O ex-atleta e presidente da Liga Paulista de Musculação (LPM), Aurélio de Carvalho, que acompanha o fisiculturismo desde os anos 1970, destaca a mudança de escala. “O esporte sempre existiu, mas hoje tudo é maior. O uso se banalizou, o acesso ficou mais fácil e as redes sociais agravaram a desinformação. O desempenho fora do padrão virou vitrine”, afirma.
Nesse sentido, em abril de 2023, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma resolução proibindo a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos ou de ganho de massa muscular, reforçando o caráter de saúde pública do problema. Ainda assim, o mercado paralelo segue ativo. Um praticante de musculação de 28 anos entrevistado pela reportagem conta como foi o seu processo com o uso dessas substâncias: “Eu tive contato com anabolizantes ainda muito jovem, por indicação de alguém próximo. A promessa era simples: usar por alguns meses e parar. Mas isso não acontece. O corpo e, principalmente, a mente se viciam. Eu perdi dois amigos por abuso de anabolizantes. Em um dos casos, houve complicações cardíacas que foram ignoradas até um infarto fatal. No outro, o uso de substâncias associadas a aumento extremo de agressividade levou a uma situação de perda total de controle e morte.”
Para o jovem: “Parar foi um inferno os primeiros meses foram os piores. Depressão, cansaço extremo, perda de força, de massa muscular, ganho de gordura. Para quem passou anos fissurado na própria imagem, isso é devastador”. Ele comenta que começou treinos em academias aos 14 anos, quando foi diagnosticado como um adolescente obeso. Seu processo de emagrecimento foi acelerado e sem orientação médica, dias a fio sem se alimentar e outros comendo apenas um ovo cozido ao dia. “Isso me levou a desenvolver uma autoimagem completamente distorcida. Eu me via magro, mas me sentia gordo”, afirma o entrevistado.
Fisiculturismo e o peso da estética extrema
Competições como o Mr. Olympia e o Ms. Olympia reacenderam o interesse global pelo fisiculturismo. Categorias como a Classic Physique, que busca equilíbrio entre volume e harmonia corporal, tornaram-se referência estética para milhões de pessoas. O esporte, no entanto, carrega um paradoxo: é sinônimo de disciplina, técnica e dedicação, mas também está associado a excessos que o público tenta imitar fora do ambiente competitivo.
Natural do Acre, Ramon Rocha Queiroz, o Ramon Dino, tornou-se o principal nome do fisiculturismo brasileiro. Após conquistar o Pro Card em 2018 e acumular vice-campeonatos, venceu em 2025 a categoria Classic Physique no Mr. Olympia, em Las Vegas, tornando-se o primeiro brasileiro campeão da modalidade. A vitória ocorreu no mesmo período da aposentadoria de Chris Bumstead, ídolo mundial da categoria, consolidando Ramon como nova referência estética global.
Para Marcos Medeiros, produtor e gestor de mídias nacional da Muscle Contest, o impacto vai além do esporte. “O fisiculturismo virou espetáculo. Hoje os eventos acontecem em grandes teatros, com produção profissional. A vitória do Ramon aumentou a procura por campeonatos, roupas fitness, suplementos e tudo que envolve esse universo.”

Marcos Medeiros (direita) ao lado de Alfredo Neto (esquerda), atleta natural de fisioculturismo, no campeonato mundial Olympia 2024. Foto: Acervo pessoal, Marcos Medeiros.
O problema surge quando a imagem do atleta profissional passa a ser tratada como padrão alcançável entre praticantes comuns que buscam uma melhora em seus estilos de vida. “Quem sente mais o impacto negativo dessa exposição é quem está fora do circuito”, afirma Medeiros. “O atleta tem equipe médica e acompanhamento. O risco está em quem tenta reproduzir isso sem estrutura. A pessoa que mais faz exames médicos é o fisiculturista, é constante essa preocupação. Quando alguma coisa acontece, é uma tragédia.”
Esse efeito de dismorfia é percebido diariamente por quem trabalha em academias. Gustavo de Jesus, estudante de Educação Física, observa jovens cada vez mais ansiosos. “Muitos entram achando que em três meses terão um corpo de atleta profissional. Quando isso não acontece, vem a frustração, o exagero e o risco”, relata. Segundo ele, não é raro ver adolescentes treinando com cargas excessivas e buscando atalhos farmacológicos sem compreender as consequências e riscos dessa decisão.

Foto de Gustavo com Ramon Dino na Arnold Sports Festival South America. Foto: Acervo pessoal, Gustavo de Jesus.
Ozempic, Mounjaro e o novo ciclo da busca estética
A lógica do resultado rápido também se reflete no uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro, indicados originalmente para diabetes tipo 2. Entre 2022 e 2023, esses fármacos passaram a ser amplamente utilizados para emagrecimento estético, provocando inclusive crises de abastecimento. Com a popularização, surgiram versões manipuladas e mercados paralelos, elevando os riscos de segurança clínica, dosagem incorreta e efeitos colaterais graves.
Sem acompanhamento médico, usuários ficam expostos a desidratação, deficiências nutricionais e impactos psicológicos. “É a mesma lógica do atalho”, resume Higarashi. “Seja com hormônio ou medicamento, o problema é a ausência de supervisão.”
O atleta Mendonça, competidor da categoria Men’s Physique da Muscle Contest de Maringá, reconhece a complexidade do tema. “Em competições de alto nível, o uso de hormônios acaba sendo necessário pela busca da performance em cima do palco, em um curto período. Mas romantizar o abuso é errado. O resultado não vem só da substância, vem da constância, da disciplina e do comprometimento diário de todo o processo de construção do atleta.”
O impacto não é apenas físico, ocasionando transtornos impulsionados pelo psicológico enfraquecido. Casos de dismorfia muscular e distúrbios alimentares estão cada vez mais associados à pressão estética amplificada pelas redes sociais em diversas camadas. “A parte mais difícil da preparação não é a dieta, é o convívio social”, relata Miguel. “Você deixa de dividir momentos simples com quem ama, isso dói para quem realmente vive do esporte. Apesar da alegria em ser uma referência e inspiração para as pessoas ao redor, os sacrifícios que fazemos não podem ser deixados de lado”, comenta Mendonça.
O poder e o custo da indústria de wellness
O wellness é hoje um gigante econômico, os números mostram uma potência vertiginosa: o segmento de wellness real estate já ultrapassa US$ 584 bilhões, enquanto produtos de nutrição e suplementação crescem cerca de 7% ao ano, segundo a Global Wellness Institute (GWI).
A explosão do setor trouxe uma infinidade de produtos que prometem resultados rápidos e naturais, mas carecem de evidência científica, como patches de vitaminas, shots detox, colágeno hidrolisado, gomas e chás para emagrecer ou cosméticos “antiestresse”. Aproveitando lacunas regulatórias, esses itens não precisam comprovar eficácia clínica e vendem uma estética de saúde que pouco entrega.

Miguel Mendonça, atleta de fisiculturismo, ao lado dos finalistas no palco da Muscle Contest Maringá (2025). Foto: Acervo pessoal, Miguel Mendonça.
A narrativa do corpo saudável se tornou também uma narrativa de consumo. “Dentro do fisiculturismo, a gente entende que genética, estrutura corporal e limites individuais importam”, explica Miguel Mendonça. “Mas fora dessa bolha, a comparação é muito mais cruel, porque as redes sociais impactaram a forma que nos vemos enquanto pessoas. Nos meus atendimentos como treinador, recebo pessoas que chegam querendo alcançar o corpo de famosos, mas preciso instruir que cada pessoa tem sua trajetória individual e que é preciso alcançar a sua melhor versão e não a versão do outro.”
Nesse contexto, o sucesso de atletas como Ramon Dino e demais nomes brasileiros cumprem um papel ambíguo. A cooptação da rotina de disciplina esportiva que passa pela espetacularização das redes sociais, mas também que alimenta uma indústria que vende facilidade para uma pessoa comum que não tem as mesmas 24h disponíveis. Tentar reproduzir um padrão sem estrutura médica, acompanhamento profissional e compreensão dos limites do próprio corpo é uma armadilha que tem sido romantizada. A indústria do wellness movimenta trilhões, mas o desafio central permanece o mesmo: resgatar o sentido original de bem-estar. Cuidar da saúde, e não apenas parecer saudável.
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