O Brasil chega ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 diante de uma disputa marcada por profundas diferenças políticas e ideológicas. De um lado, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que disputa pela primeira vez a Presidência da República.

Para a comunidade LGBTQIAPN+, porém, existe uma pergunta que ultrapassa o resultado das urnas: o que pode mudar nas políticas públicas, nos discursos institucionais e na relação do governo federal com a população LGBT+ caso Flávio Bolsonaro chegue ao Palácio do Planalto?

A pergunta ganha relevância porque o candidato, ao longo de sua trajetória política, apresentou posições sobre gênero, sexualidade, religião e família que ajudam a compreender sua atuação pública.

Publicidade
Publicidade

Da aproximação com a comunidade LGBT+ ao discurso sobre pessoas trans

Em 2026, Flávio passou a adotar uma estratégia de aproximação com grupos que historicamente não fazem parte da principal base eleitoral do bolsonarismo. Em fevereiro, por exemplo, publicou uma mensagem dizendo que gostaria de contar com “todas, todos, todes, todys e todXs” para vencer a eleição. A movimentação foi interpretada por veículos de imprensa como uma tentativa de ampliar seu eleitorado e apresentar uma imagem mais moderada.

Mas declarações mais recentes mostram que essa aproximação convive com posições conservadoras sobre identidade de gênero.

Em agosto de 2026, ao falar sobre banheiros femininos, Flávio declarou:

“Eu não quero a minha filha frequentando dentro de sala de aula, ou no colégio dela, ou no shopping, que ela esteja no banheiro feminino e daqui a pouco entra uma pessoa que se sente mulher.”

Na sequência, afirmou que essa questão deveria ser “encarada de frente”.

Já em 2024, durante uma orientação de bancada no Senado sobre um projeto relacionado à proteção da população LGBT+ encarcerada, Flávio declarou voto favorável ao texto, mas questionou a presença de pessoas trans em unidades prisionais de acordo com sua identidade de gênero. Em sua fala, mencionou situações envolvendo mulheres trans e mulheres cis nos presídios e afirmou que havia uma “dificuldade na hora de humanizar alguém na prestação de uma pena”.

Essas declarações ajudam a apresentar uma questão que deverá interessar diretamente à população trans: qual será a política de um eventual governo Flávio Bolsonaro para identidade de gênero, educação, sistema prisional e direitos das pessoas trans?

A religião também ocupa espaço importante no discurso

Outro elemento que ganhou força durante a campanha de 2026 é a presença da religião no discurso de Flávio Bolsonaro.

Em setembro, o candidato passou a utilizar com frequência referências a Deus, à fé e a um suposto propósito religioso relacionado à sua candidatura. Em uma declaração, afirmou:

“Também creio que Deus tenha um propósito pra nossa nação.”

Em outra ocasião, disse acreditar que Deus estaria “me preparando há 24 anos para ser presidente do Brasil”.

Durante um evento de campanha, Flávio também afirmou que, caso assumisse a Presidência, faria uma oração entregando a nação brasileira “nas mãos do senhor Jesus”. No mesmo discurso, afirmou que o Brasil estaria vivendo uma “crise moral generalizada”.

A presença da religião na política não é exclusividade de um candidato ou de um grupo político. A questão que se coloca para uma sociedade plural é outra: como um eventual governo conciliaria suas convicções religiosas com a obrigação constitucional de governar cidadãos de diferentes religiões, crenças e orientações sexuais?

E as mulheres?

O discurso de Flávio Bolsonaro sobre as mulheres também passou por diferentes momentos durante a campanha.

Em agosto, ao falar sobre suas duas filhas, o candidato declarou:

“Fiz duas filhas exatamente para isso, quando ficar velhinho é que vai cuidar de mim.”

Na mesma fala, afirmou que “mulheres são assim, são coração”. A declaração foi registrada pela imprensa durante um evento de campanha.

Poucas semanas depois, em uma estratégia direcionada ao eleitorado feminino, sua campanha passou a enfatizar a participação da esposa e das filhas. Em propagandas de rádio, Flávio afirmou: “Lá em casa quem manda são elas”.

Também declarou que pretende indicar “homens e mulheres” ao Supremo Tribunal Federal caso seja eleito.

São discursos que podem ser analisados de maneiras diferentes pelo eleitorado. Para alguns, representam valorização da família e das mulheres; para outros, determinadas expressões podem levantar discussões sobre papéis tradicionais de gênero.

E as antigas declarações sobre gays atribuídas ao bolsonarismo?

Aqui é necessário fazer uma distinção importante.

Existem inúmeras declarações controversas de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, sobre homossexualidade, mulheres e diversidade. Entre elas estão declarações feitas em entrevistas e durante sua carreira parlamentar.

Essas frases fazem parte do histórico político do bolsonarismo e ajudam a compreender o ambiente político no qual Flávio construiu sua carreira. Mas não é correto atribuir automaticamente ao filho declarações feitas pelo pai.

No caso de Flávio, o que pode ser analisado diretamente são suas próprias manifestações e decisões políticas — como a fala sobre pessoas trans no sistema prisional, a posição sobre banheiros femininos e suas declarações sobre família, mulheres e religião.

O que está em jogo para a comunidade LGBTQIAPN+?

Mais do que perguntar se a comunidade LGBT+ está “preparada” ou não para um eventual governo Flávio Bolsonaro, talvez seja necessário fazer perguntas objetivas ao candidato e aos eleitores:

Como será a política nacional de combate à LGBTfobia?

Quais serão as políticas para a população trans?

Haverá manutenção ou ampliação de programas voltados à população LGBTQIAPN+?

Como o governo tratará educação, identidade de gênero e diversidade nas escolas?

Qual será a posição do Executivo diante de propostas que envolvam direitos de pessoas LGBT+?

Como serão conciliadas convicções religiosas pessoais e a obrigação do Estado de atender igualmente cidadãos de diferentes crenças e orientações sexuais?

Essas respostas são mais importantes do que slogans de campanha.

A eleição de domingo não será apenas uma escolha entre dois nomes. Para milhões de brasileiros, será também uma escolha sobre quais projetos de país estarão no comando do governo federal nos próximos quatro anos.

E, para a população LGBTQIAPN+, uma questão permanecerá no centro do debate: independentemente de quem vencer, quais garantias de cidadania, respeito e proteção serão preservadas e quais poderão mudar?

A resposta, neste momento, está nas propostas, nas declarações e no histórico dos candidatos. E, no domingo, estará também nas urnas.

FONTE/CRÉDITOS: Mundo GTV