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Comediante e comunicador abre o jogo sobre bissexualidade masculina, não monogamia na prática e como o humor pode ser uma ferramenta revolucionária contra o amor romântico tradicional.
Humorista, comunicador e abertamente não monogâmico, Felipe Bruto usa a comédia para furar bolhas e provocar discussões que vão muito além dos palcos. Com conteúdos nas redes sociais que misturam análises afiadas da cultura pop, culinária, política e bastidores das dinâmicas afetivas, ele desmistifica tabus sobre relacionamentos e sexualidade de forma leve, direta e sem didatismo engessado.
Com anos de caminhada no stand-up comedy, Felipe transforma a ironia e a auto-observação em ferramentas para questionar o modelo tradicional de amor e a vivência bissexual masculina. Em um papo exclusivo com a nossa reportagem, o comediante abriu o jogo sobre a rotina da não monogamia, os bastidores do meio humorístico, a relação com o público e por que se questionar é o primeiro passo para viver com mais liberdade.
Uma mistura de fúria e afeto
Quando questionado sobre quem é Felipe Bruto para quem o está conhecendo agora, o comediante define sua essência de forma direta e sem rodeios:
"Eu sou um misto de putaria, idiotice, política e culinária. Joga isso tudo numa panela e dá em mim. Quem me conhece diz que eu sou um doido, mas quem me conhece mesmo descobre que eu sou uma pessoa amável."
Essa mesma autenticidade se reflete em como lida com a sua bissexualidade. Para ele, o processo de descoberta nunca precisou de grandes dramas ou rituais de afirmação. "Sendo bem honesto, eu nunca dei muita bola para isso. Eu fico com seres humanos, sejam fêmeas ou machos. Eu nunca parei para analisar como eu me assumi bi; foi muito ok", explica.
Embora a bissexualidade masculina ainda enfrente invisibilidade e preconceitos dentro e fora da comunidade LGBTQIAPN+, Felipe relata uma vivência pautada por outras camadas de opressão social: "Eu nunca sofri por ser bi. Já sofri por ser favelado, mas nunca pela minha orientação sexual. Acho que ninguém se importa muito — nem o suficiente para me atingir por eu ser bi. No máximo, vez ou outra, alguém me dava um fora por não querer se relacionar com um homem bi."
A virada de chave para a não monogamia veio do incômodo natural com as amarras do modelo tradicional. "Eu sempre me senti diferente com relação à monogamia em si. Sempre vi como algo desnecessário e totalmente errado. Nunca quis casar, apesar de ter sido noivo, e nunca fiz questão de estar grudado com alguém, mesmo que eu amasse essa pessoa", revela o comediante.
Foi em 2022 que a prática entrou oficialmente em sua vida romântica: "Alguém me apresentou a não monogamia dentro de uma relação romântica e, desde então, eu estudei, pratiquei e não olhei mais para trás."
No entanto, Felipe faz questão de pontuar que ser bissexual e ser não monogâmico são dinâmicas completamente independentes — desconstruindo o mito de que pessoas bi "precisam" de múltiplos relacionamentos por conta da sua orientação:
"Primeiramente, nem deveria ser algo a ser desconstruído ou desmistificado. Independentemente da sua orientação sexual, isso não interfere na sua escolha de relações. Se você é não mono, você pode ser bi, hétero, trans... não existe uma relação entre essas duas coisas. Uma é para qual gênero você tem preferência e a outra é com qual tipo de relação você se identifica mais. Mesmo que você namore um canguru — algo que não recomendo —, você vai escolher entre macho ou fêmea e qual tipo de relação. Eu não desmistifico e não desconstruo; deixo para o público tirar suas próprias conclusões."
O humor como ponte de desconstrução
Com 7 anos de carreira no stand-up e vivenciando a não monogamia há 2 anos, Felipe encontrou na comédia a linguagem ideal para falar do tema há cerca de um ano:
"Com essa bagagem de experiência na comédia, resolvi falar do tema de uma maneira diferente. Não vou explicar tecnicamente porque é como um mágico explicando um truque. É bonito, é elegante, funciona, e tenho visto mais pessoas abrindo a mente com relação à não monogamia através do humor. Isso já basta."
Essa ocupação do espaço humorístico também carrega seus desafios em um meio historicamente machista, embora Felipe enxergue transformações positivas na cena atual: "O stand-up já foi, há 7 ou 10 anos, realmente muito machista. Hoje esse meio já é extremamente nichado e conta com mulheres que são referências da comédia, como a Tatá Mendonça e a Niny Magalhães, que é uma monstra do stand-up também. Hoje em dia temos mulheres gigantes que começaram no stand-up, e o machismo não teve força para segurar a qualidade e o talento que vêm delas."
Ele reconhece também os recortes de privilégio que atravessam sua vivência nos palcos: "Eu, como homem bi e não mono, há de se concordar que, por conta do fator 'homem branco', acaba sendo mais 'fácil'. Eu escrevo e estudo comédia todo santo dia, mas não fecho os olhos para a realidade."
Diálogo, cultura pop e coragem de questionar
Quando o assunto é manter relacionamentos não monogâmicos saudáveis na prática, o ingrediente principal é a vulnerabilidade e o alinhamento constante com a parceria:
"Acredito na comunicação franca. Não olhar para o seu parceiro como alguém que não sabe conversar ou te entender. É sua pessoa favorita: exponha-se, fale com amor, expresse-se da melhor maneira possível para que você e quem você ama possam ter um relacionamento melhor a cada dia. Mas não é fácil; é mais fácil viver sozinho e nunca se incomodar em tentar ser melhor todo dia."
O comediante, que frequentemente analisa letras de canções e narrativas da mídia em seus conteúdos, avalia ainda como a arte contemporânea retrata os afetos: "Eu acredito que a música tem muito de não monogamia. Acredito que tem muito a se ouvir por aí sobre a descentralização do amor romântico e performático! Mas, em questão de produção audiovisual, deixa a desejar pra caralho."
Para quem está em dúvida sobre o próprio modelo de relacionamento ou teme o julgamento da sociedade ao buscar novas formas de amar, Felipe deixa uma provocação afiada:
"Questione tudo e todos, e principalmente a você mesmo! Nada é mais importante do que se descobrir todos os dias. Por que você mente? Por que você se sente mal com tal atitude? Questione-se sempre."
"A sociedade vai te bater de qualquer jeito. Eu prefiro apanhar com conhecimento e gozando com pessoas que eu amo e cuido. E você?"
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