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Durante anos, as redes sociais foram tomadas por links, códigos promocionais e vídeos de celebridades, atletas e influenciadores divulgando plataformas de apostas. A mensagem muitas vezes era parecida: apostar poderia ser divertido, gerar ganhos e até transformar poucos reais em grandes valores. Agora, com a proibição das bets no Brasil, esse mercado deixa uma pergunta no ar: o que esses grandes divulgadores vão fazer daqui para frente?
A mudança aconteceu de forma concreta nesta sexta-feira (25). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proíbe, em território nacional, a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online.
A MP também determina que as autorizações existentes sejam extintas ao fim de 30 dias e estabelece que os sites e aplicativos deverão deixar de disponibilizar as apostas após o período de transição previsto na medida.
E existe uma mudança especialmente importante para quem vive de publicidade na internet: a propaganda também está proibida. A MP alcança comunicação, publicidade, propaganda, marketing e patrocínio relacionados às bets, inclusive conteúdos digitais destinados ao público brasileiro. Os materiais publicitários e sinais de patrocínio deverão ser retirados em até dez dias.
E os grandes influenciadores?
A questão agora chega diretamente aos grandes nomes que construíram parte de sua publicidade em torno das plataformas de apostas.
Um dos casos que ganhou repercussão em 2026 envolve a influenciadora Virgínia Fonseca. Em julho, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios entrou com uma ação civil pública contra a influenciadora e a Blaze, pedindo R$ 120 milhões em danos morais coletivos. A ação apresenta alegações sobre a forma de divulgação da plataforma e sobre supostos incentivos a apostas. A defesa de Virgínia afirmou que responderia às acusações no processo.
Outras personalidades também estiveram associadas à publicidade do setor. Reportagem da BBC News Brasil citou nomes como Vini Jr., Galvão Bueno, Cafu, Zinho, Renato Gaúcho e Túlio Maravilha em campanhas de empresas de apostas durante a Copa do Mundo.
O debate, portanto, não envolve apenas os donos das plataformas. Envolve também quem emprestou rosto, voz, credibilidade e milhões de seguidores para promover esse mercado.
Quando o discurso era “ganhe rápido”
Durante o período de expansão das bets, uma das principais críticas feitas à publicidade era justamente a associação das apostas com dinheiro fácil, sucesso e enriquecimento rápido.
Antes mesmo da proibição, o governo já havia endurecido as regras de publicidade. Em julho, novas normas passaram a exigir advertências como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”. Também foram proibidas campanhas que apresentassem apostas como fonte de renda, investimento ou caminho para enriquecimento rápido.
Agora, a situação mudou radicalmente.
Quem passou anos dizendo ao público que apostar poderia trazer ganhos rápidos terá de encontrar outras formas de monetização, outros anunciantes e, principalmente, outras narrativas para suas redes sociais.
É como se o jogo tivesse mudado de lado.
Durante muito tempo, o influenciador apresentava a aposta como oportunidade. Agora, com o fim desse mercado legalizado, a oportunidade publicitária também desaparece.
O azar bateu à porta?
A frase pode até render manchete, mas existe uma questão mais séria por trás dela.
Se uma pessoa com milhões de seguidores dizia que determinada plataforma era uma oportunidade, recebia dinheiro para divulgar o serviço e ajudava seus seguidores a chegar até aquela plataforma, surge uma pergunta legítima: qual é a responsabilidade de quem influencia milhões de pessoas quando o produto anunciado deixa de existir legalmente?
O Ministério da Justiça, inclusive, informou nesta semana a retirada de 1.367 páginas e perfis do Facebook e Instagram utilizados para divulgar plataformas irregulares de apostas. O governo afirma que a ação faz parte do combate à divulgação e captação de usuários para bets ilegais.
Também não se trata apenas de publicidade. O Ministério Público Federal abriu, em julho, investigação para analisar a publicidade de apostas e a atuação de comentaristas esportivos, especialmente diante dos possíveis impactos sobre consumidores e públicos vulneráveis.
E agora?
Para os influenciadores, o cenário muda completamente.
Aqueles que dependiam de contratos, links de afiliados, códigos promocionais e patrocínios de bets precisarão procurar novos mercados e novos anunciantes.
Para o público, fica uma questão ainda maior: quantas das promessas feitas nas redes sociais realmente eram sobre diversão e quantas eram simplesmente publicidade disfarçada de oportunidade?
A MP 1.394/2026 entra em vigor imediatamente, mas, como toda medida provisória, seu futuro depende da tramitação no Congresso Nacional. O texto publicado pelo governo determina a proibição e estabelece o cronograma de encerramento das operações autorizadas.
No fim das contas, os influenciadores que durante anos ajudaram a transformar as bets em um fenômeno digital agora terão que responder a uma pergunta muito mais simples:
se não existe mais bet para divulgar, qual será o próximo “negócio imperdível” apresentado aos milhões de seguidores?
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