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A exposição 150 anos de Joaquín Torres García marca um momento histórico para o circuito cultural brasileiro e latino-americano. Trata-se da maior mostra já realizada dedicada ao artista uruguaio, reunindo um conjunto inédito de obras de diferentes períodos, técnicas e suportes, vindas majoritariamente da Fundação Torres García, em Montevidéu, além de coleções brasileiras e internacionais, um conjunto superior a 500 obras. É a primeira vez que um número tão expressivo e variado de obras de Torres García é apresentado de forma integrada em uma única exposição, o que permite uma leitura mais ampla, profunda e complexa de sua trajetória.
O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, é a primeira instituição a receber a mostra no Brasil, funcionando como ponto de partida para um projeto expositivo de grande escala que também passa por outras cidades, com recortes curatoriais específicos. Em São Paulo, o foco recai sobre geometria, estética e concretismo; em Belo Horizonte, a exposição se aprofundará na relação entre Torres García, a arte popular e as identidades dos povos; já em Brasília, a curadoria enfatizará a escala, a organização política do espaço e as reflexões sobre a América Latina como projeto civilizatório. Essa circulação múltipla reforça o caráter continental da obra e a capacidade de adaptação de seu pensamento a diferentes contextos.
No CCBB, localizado no triângulo histórico da capital paulista, a exposição ocupa quatro andares e propõe uma leitura que foge da linearidade cronológica tradicional. Em vez de organizar a obra apenas por datas, a curadoria opta por uma estrutura conceitual, que cruza tempos, linguagens e ideias, colocando em diálogo o pensamento artístico de Torres García com artistas brasileiros modernos e contemporâneos. A proposta é apresentar o artista não apenas como pintor ou escultor, mas como pensador, educador, teórico e formulador de uma ideia de arte universal ancorada na América Latina.
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Um dos aspectos mais significativos da mostra é a escolha política e simbólica de apresentar legendas e textos curatoriais em espanhol e português, em vez da combinação mais comum entre português e inglês. A decisão reforça o eixo latino-americano da exposição e estabelece um campo de pertencimento cultural compartilhado entre Brasil, Uruguai e o restante do continente. A cronologia biográfica também se articula com símbolos, trechos de manuscritos e obras-chave, permitindo que o visitante compreenda como vida, pensamento e produção artística se entrelaçam de forma indissociável.
A exposição também carrega um peso histórico relacionado à preservação do patrimônio cultural. Incêndios atravessam tanto a história recente das instituições brasileiras quanto a própria trajetória de Torres García. O artista viveu episódios de perda material significativos, como o incêndio que destruiu sua fábrica de brinquedos em Nova York, momento em que enfrentava graves dificuldades financeiras. Décadas depois, a circulação de suas obras pelo Brasil seria marcada por tragédias institucionais, como o incêndio do Museu Nacional, em 2018, que reacendeu debates sobre conservação, circulação internacional de acervos e responsabilidade histórica. A mostra dos 150 anos surge também como resposta consciente a esses traumas, reforçando protocolos, parcerias e a necessidade de proteger a memória cultural latino-americana.
Vida e obra de Joaquín Torres García
Joaquín Torres García nasceu em 1874, em Montevidéu, mas construiu sua trajetória artística a partir de deslocamentos constantes. Viveu na Espanha, na França e teve passagens decisivas por outras cidades europeias, onde entrou em contato direto com as vanguardas do início do século XX. Sua formação atravessa o modernismo catalão, o contato com o cubismo de Pablo Picasso e Georges Braque e, sobretudo, o diálogo intenso com Piet Mondrian e o neoplasticismo.
Embora tenha participado ativamente dos debates modernistas europeus, Torres García nunca se acomodou às fórmulas dominantes. Rompeu tanto com o cubismo quanto com o abstracionismo geométrico mais rígido, buscando uma síntese própria, a qual se consolidaria no que ele chamou de Universalismo Construtivo: uma proposta estética e filosófica que combina estrutura geométrica, simbolismo arcaico e referências culturais indo-americanas, africanas e mediterrâneas.
Nesse aspecto, Saulo di Tarso, artista e curador da exposição, relata que a ideia da integração contempla toda a trajetória do Joaquín Torres García, desde quando ele sai do Uruguai e vai para a Europa e se constitui como um artista moderno que participou efetivamente da construção da arte moderna. “Ele conviveu com movimentos como o Neoplasticismo, o De Stijl e a Bauhaus, não como alguém que foi simplesmente estudar, mas como um artista que encontrou pares, como Mondrian, Theo van Doesburg, Vantongerloo, Paul Klee e Kandinsky. Ele viveu, de fato, a formação da arte moderna do século XX como um ator entre esses grandes nomes”, di Tarso completa.
Sua produção é marcada pela simplicidade dos materiais e pela constância do fazer artístico. Mesmo em períodos de extrema dificuldade financeira, quando precisou fabricar brinquedos de madeira para sustentar a família, Torres García nunca deixou de desenhar, escrever e refletir sobre arte. Sua biografia é composta por milhares de páginas manuscritas, anotações em papéis simples, cadernos, livros e fichas, que revelam um pensamento em permanente elaboração. Estima-se que existam mais de 30 mil páginas de manuscritos, das quais apenas uma parte reduzida pode ser exibida, dada sua fragilidade e raridade.
Entre suas obras mais emblemáticas está América Invertida, desenho que se tornou um manifesto visual e político, onde ao inverter o mapa do continente sul-americano, colocando o Sul no topo, Torres García propõe uma ruptura radical com a lógica eurocêntrica e afirma que o Norte simbólico da arte e da cultura pode, e deve, estar no Sul. Não por acaso, o curador Saulo Di Tarso define a obra como “a Mona Lisa latina”, um ícone capaz de condensar um projeto civilizatório e cultural.
Além de artista, Torres García foi um educador pioneiro e defendia o ensino de arte para crianças e acreditava que a formação estética era parte fundamental da formação humana. Essa dimensão pedagógica aparece tanto em seus textos quanto na própria expografia, que considera diferentes estaturas, idades e modos de fruição, reforçando a ideia de acessibilidade e democratização do acesso à arte.
Outro eixo central de sua obra é o construtivismo, entendido por Torres García não apenas como um estilo formal, mas como um princípio de organização do mundo. O construtivismo propõe a construção da obra a partir de estruturas geométricas, relações proporcionais e equilíbrio entre partes, recusando o excesso decorativo e a ilusão naturalista. Para Torres García, essa estrutura não elimina o simbólico; ao contrário, funciona como base para a inserção de signos ancestrais, figuras humanas, animais e elementos do cotidiano, criando uma síntese entre ordem e imaginação.
Esse construtivismo latino-americano dialoga diretamente com a ideia de antropofagia cultural. Assim como o movimento antropofágico brasileiro propunha devorar criticamente as influências europeias para produzir algo novo, assim Torres García absorve as vanguardas modernas sem submissão. Ele reorganiza essas referências a partir das matrizes indo-americanas, africanas e hispânicas, transformando a abstração em linguagem situada, enraizada e política. O Universalismo Construtivo nasce justamente dessa operação de assimilação, transformação e reinvenção.
Ligações com os povos originários, africanos e hispânicos
Um dos eixos centrais da obra de Torres García é a investigação profunda das matrizes culturais que formam a América Latina. O artista reuniu mais de cinco mil fichas de estudo sobre culturas africanas e mais de quatro mil imagens relacionadas à arte indo-americana, demonstrando um interesse sistemático e rigoroso por essas tradições. Para ele, símbolos, formas e estruturas dessas culturas não pertenciam ao passado, mas continham princípios universais capazes de dialogar com a modernidade.
Para di Tarso, quando Torres García retorna da Europa, o artista ainda se vê como um artista euro-sul-americano que acreditava que vivíamos em um continente novo (sul-americano). “Mas, ao se deparar com a profundidade das nossas civilizações originárias, ele amplia a consciência e passa a defender que a nossa identidade é tão valorosa quanto qualquer outra cultura do mundo. O exemplo dele é: ergamos quem nós somos sem destruir a relação com as culturas que nos originaram”, afirma di Tarso.
Essa pesquisa se traduz visualmente em símbolos recorrentes em suas obras, como peixes, sóis, barcos, figuras humanas esquemáticas e sinais gráficos que remetem tanto à arte pré-colombiana quanto às máscaras africanas. O peixe, por exemplo, aparece como símbolo de vida, inteligência emocional e racional, além da luta pela sobrevivência, estabelecendo pontes entre biologia, espiritualidade e organização social.
Torres García Também se apropria criticamente das heranças hispânicas e greco-romanas, não como modelo a ser reproduzido, mas como camada histórica a ser reconfigurada a partir de um olhar latino-americano. Sua passagem pela Espanha foi fundamental para esse processo, permitindo-lhe compreender a tradição clássica e, ao mesmo tempo, deslocá-la para um novo contexto cultural.
A exposição explicita essas conexões ao colocar lado a lado obras de Torres García e de artistas brasileiros que dialogam com o concretismo, o neoconcretismo e outras vertentes modernas, como Alfredo Volpi, além de artistas contemporâneos que revisitam essas questões sob novas perspectivas. O resultado é um campo de tensões produtivas, onde geometria e figuração, abstração e identidade, passado e futuro coexistem sem hierarquias rígidas.
Essa relação entre estrutura e símbolo também permite uma leitura contemporânea da obra de Torres García, que articula passado e presente de forma não linear. Dessa maneira, o artista que já antecipava debates que atravessavam o campo cultural e político com pautas de identidade, colonialidade, pertencimento e memória, hoje fortalece-se ainda mais. Sua obra sugere que o passado não é um arquivo encerrado, mas uma força ativa que reorganiza o presente e projeta futuros possíveis.
Em um mundo marcado por disputas geopolíticas, crises ambientais e revisões históricas, Torres García propõe uma visão em que diferentes tempos coexistem e se informam mutuamente. “A maior contribuição do Torres-García não está num lugar partidário, mas na consciência universal que ele propõe. ‘América Invertida’ muitas vezes é utilizada como símbolo ideológico, principalmente por culturas de esquerda, mas um artista com esse nível de reflexão mostra que a destruição nunca leva a ganhos. Ele fala de valorização da liberdade e da construção contínua da paz”, comenta di Tarso a respeito da visão de Torres García.
Essa perspectiva dialoga diretamente com pautas atuais, como a valorização de saberes tradicionais, a crítica ao eurocentrismo e a busca por narrativas plurais. Ao afirmar que todas as civilizações possuem o mesmo valor simbólico e estrutural, o artista desloca hierarquias e propõe uma ética visual baseada na equivalência e na convivência. Sua obra não oferece respostas fechadas, mas sim ferramentas para pensar a complexidade do presente a partir de uma escuta atenta do passado.
A experiência na visita guiada
Participar da visita guiada no CCBB foi vivenciar a exposição em uma camada adicional de sentido. Conduzida pelo curador Saulo Di Tarso, a visita revelou bastidores do processo curatorial, escolhas conceituais e desafios logísticos envolvidos na realização da maior exposição de Torres García de todos os tempos. A fala, a densidade das informações e a circulação constante pelos andares criaram uma experiência intensa e dinâmica, que exigia atenção total e reflexão constante das ideias apresentadas.
Na proposta curatorial concebida por Saulo Di Tarso, nas salas organizadas, há um conjunto de obras sob grandes mesas centrais em que ele metaforicamente associa ao “Tratado de Tordesilhas”,ou à ideia de uma medianiz simbólica. A referência não é literal, mas conceitual: assim como o acordo de 1494 dividiu o território americano entre as coroas ibéricas, a disposição das obras tenciona visualmente as heranças portuguesa e espanhola, além das matrizes africanas e indígenas que atravessam a formação do continente.
Ida Feldman, artista plástica e convidada para a visita, comenta a surpresa positiva com a exposição: “Eu sou dessas pessoas que vai sem ler muito sobre o que é, cheguei lá e fui surpreendida. A visita guiada com o Saulo foi muito importante, porque eu aprendi muitas coisas e me identifiquei muito com o trabalho, principalmente por causa dos peixes. Tem peixe para todo lado, e no meu trabalho com colagem e escrita eu também uso muito a figura do peixe. Fiquei muito impactada em conhecer a história de um artista que precisou fazer outras coisas para sobreviver e sustentar a família, que disse não para a Europa e trouxe a África e as civilizações originárias para o centro do trabalho dele. E também gostei muito de saber que ele desenvolvia brinquedos, eu sou apaixonada por brinquedos até hoje. Foi uma experiência que me marcou bastante.”
Ao reunir trabalhos que dialogam entre si por afinidades formais, simbólicas e históricas, a mesa não reforça fronteiras, mas as expõe para questioná-las. O gesto curatorial transforma o espaço expositivo em campo crítico, sugerindo que as divisões coloniais ainda estruturam imaginários e identidades, ao mesmo tempo em que aponta para a possibilidade de recomposição, uma América Latina pensada não como fragmento, mas como território compartilhado de criação e conflito.
Essa dinâmica se refletiu na própria forma de apreensão da mostra: não como um percurso linear e fechado, mas como um conjunto de fragmentos que se conectam progressivamente. A chamada “Sala das Temporalidades Cruzadas”, no terceiro andar, sintetiza bem essa proposta ao colocar obras e ideias em diálogo entre passado, presente e eternidade, rompendo com a noção tradicional de história da arte como sucessão ordenada de estilos.
Durante a visita, também se destacou a presença simbólica de Manolita, esposa de Torres García, homenageada ao longo de todos os andares, reforçando a dimensão afetiva e cotidiana da vida do artista. A participação de artistas contemporâneos brasileiros ampliou ainda mais a leitura da obra do homenageado, trazendo interpretações atuais e pessoais sobre o legado do uruguaio.
Ao final, a experiência da visita guiada não apenas aprofundou o entendimento sobre Joaquín Torres García, mas também evidenciou a potência de sua obra como ferramenta de reflexão sobre identidade, colonialismo, modernidade e pertencimento. Mais do que uma retrospectiva, a exposição se afirma como um convite a repensar a história da arte a partir do Sul global, valorizando a diversidade de matrizes culturais que formam a América Latina e apontando caminhos possíveis para o futuro.
Abstração, identidade e decolonialidade: o Brasil no espelho latino-americano
A reflexão de Joaquín Torres García sobre a abstração nunca esteve dissociada da identidade humana. Para o artista, a abstração só fazia sentido quando não apagava a experiência concreta dos povos, suas histórias, símbolos e formas de organização do mundo. Diferente de uma abstração autocentrada ou puramente formal, seu construtivismo parte da ideia de que a estrutura geométrica é um meio de ordenação, mas não um fim em si mesma. Ela existe para sustentar signos, memórias e cosmologias, funcionando como um campo de encontro entre razão, espiritualidade e vida cotidiana.
Essa concepção antecipa de maneira surpreendente debates que hoje atravessam o pensamento decolonial. Ao afirmar que todas as civilizações possuem o mesmo valor simbólico e estrutural, Torres García rompe com hierarquias impostas pela lógica eurocêntrica e propõe uma modernidade construída a partir do Sul. Sua obra desloca o centro da abstração artística para fora da Europa, transformando-a em linguagem situada, atravessada por matrizes africanas, indígenas e indo-americanas, sem abrir mão do diálogo universal.
Nesse contexto, a relação com o Brasil se torna fundamental e, historicamente, o país construiu uma narrativa de excepcionalidade que muitas vezes o afastou de uma identificação mais profunda com a América Latina. Torres García oferece uma chave para romper esse isolamento simbólico ao afirmar a latinidade como força criadora e não como atraso. O diálogo de sua obra com artistas brasileiros, do concretismo ao neoconcretismo, revela afinidades estruturais e conceituais que apontam para uma história compartilhada, ainda pouco reconhecida.
Quando Torres García afirma que “nosso norte é o Sul”, ele propõe mais do que uma inversão cartográfica: sugere um reposicionamento ético, cultural e político. Trata-se de reconhecer que o passado não é um resíduo a ser superado, mas uma camada ativa que informa o presente e projeta futuros possíveis. Em um momento em que o Brasil revisita suas identidades, enfrenta disputas de memória e busca narrativas mais plurais, a obra de Torres García permanece atual ao oferecer uma abstração que não aliena, mas reconecta, o indivíduo ao coletivo, o presente ao passado e o país ao continente.
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