banner

As chuvas intensas que vêm atingindo diferentes regiões do Brasil nos últimos meses têm evidenciado um problema que vai além dos fenômenos climáticos extremos. Alagamentos recorrentes, deslizamentos e prejuízos materiais expõem fragilidades estruturais no planejamento urbano das grandes cidades, acumuladas ao longo de décadas de ocupação desordenada, falhas na drenagem e ausência de políticas integradas de desenvolvimento urbano. Em um contexto de mudanças climáticas, esses problemas tendem a se intensificar e a atingir, de forma desigual, populações mais vulneráveis.

No 18º episódio do ExpliCA, quadro do projeto Fala Caio, o tema foi analisado a partir da perspectiva do urbanismo e da arquitetura, e a entrevistada foi Leila Marques, Conselheira Federal e Primeira Vice-Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR). Na conversa, ela explicou como o desenho das cidades brasileiras influencia diretamente os impactos das chuvas extremas e por que eventos desse tipo não podem ser tratados apenas como emergências pontuais.

Segundo Marques, o recorrente estado de emergências nas cidades está diretamente relacionada a escolhas urbanas feitas ao longo do tempo, como a impermeabilização excessiva do solo, a ocupação de áreas de risco e a falta de articulação entre políticas de habitação, mobilidade urbana e infraestrutura. Esses fatores reduzem a capacidade das cidades de absorver e escoar grandes volumes de água, ampliando danos sociais, ambientais e econômicos.

Publicidade
Publicidade

O episódio também abordou o papel das instituições na adaptação das cidades às mudanças climáticas: planejamento urbano, arquitetura e gestão territorial surgem como instrumentos centrais para a construção de cidades mais resilientes. Nesse cenário, programas nacionais, orçamentos municipais e a atuação de conselhos profissionais, como o CAU/BR, tornam-se fundamentais para orientar políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades e preparar os centros urbanos para eventos climáticos cada vez mais extremos.

Ouça a entrevista completa pelo player do Spotify a seguir e acompanhe todas as informações:

Pergunta 1: As chuvas intensas e os eventos climáticos extremos vêm se repetindo em diferentes regiões do Brasil. Do ponto de vista da arquitetura e do urbanismo, o que esses episódios revelam sobre o modelo de cidades que construímos ao longo das últimas décadas?

Leila Marques (CAU/BR):
Esses eventos revelam, de forma muito clara, um acúmulo histórico de erros no modo como as cidades brasileiras foram planejadas, ou deixaram de ser planejadas. Não estamos falando apenas de mudanças climáticas, mas de um modelo urbano que ignorou sistematicamente o território, os cursos d’água, o relevo e as dinâmicas ambientais. As cidades cresceram rapidamente, impulsionadas por interesses econômicos e pela especulação imobiliária, sem que o planejamento urbano acompanhasse esse crescimento. Isso resultou em ocupações em áreas frágeis, infraestrutura insuficiente e uma lógica de expansão que não considera o risco. As chuvas intensas apenas expõem essas fragilidades. Elas não criam o problema, elas revelam o que já estava posto.

Pergunta 2: Ainda é comum que esses episódios sejam tratados como tragédias naturais. Essa leitura ajuda a compreender o problema ou acaba distorcendo o debate?

Leila Marques (CAU/BR):
Essa leitura é extremamente problemática, porque ela naturaliza o desastre e esvazia o debate político. A chuva é natural, mas o desastre é socialmente construído. Quando chamamos esses episódios de tragédias naturais, deixamos de discutir as decisões ou omissões  que levaram à ocupação de áreas de risco, à ausência de infraestrutura e à falta de políticas habitacionais. Essa narrativa também retira a responsabilidade do poder público e dificulta a cobrança por políticas estruturais. O resultado é a repetição do ciclo: desastre, resposta emergencial, esquecimento e novo desastre. Enquanto não rompermos com essa lógica, continuaremos tratando sintomas e não as causas.

Pergunta 3: A impermeabilização do solo aparece como um dos fatores centrais nesse debate. Qual é o impacto desse processo no funcionamento das cidades?

Leila Marques (CAU/BR):
A impermeabilização do solo compromete diretamente a capacidade das cidades de lidar com a água. Ao impedir a infiltração, a água passa a escoar rapidamente pela superfície, sobrecarregando os sistemas de drenagem, que muitas vezes já são antigos ou insuficientes.
Esse processo se agrava quando combinado com a canalização de rios, a retificação de cursos d’água e a ocupação de várzeas, que historicamente funcionavam como áreas naturais de absorção. Além disso, a impermeabilização contribui para outros problemas urbanos, como ilhas de calor e degradação ambiental. É um exemplo claro de como decisões urbanísticas impactam diretamente a segurança e a qualidade de vida da população.

Pergunta 4: Que caminhos o planejamento urbano pode adotar para reduzir esses riscos e aumentar a resiliência das cidades?

Leila Marques (CAU/BR):
O planejamento urbano precisa romper com a lógica da resposta emergencial e assumir, de fato, uma perspectiva preventiva e integrada. Isso significa planejar a cidade considerando o território como um sistema complexo, onde habitação, mobilidade, saneamento, meio ambiente e clima estão interligados. Não é possível tratar esses temas de forma fragmentada. É fundamental incorporar soluções baseadas na natureza como política pública estruturante, e não como projetos pontuais. Parques lineares, recuperação de margens de rios, descanalização quando possível, jardins de chuva, telhados verdes e pavimentos permeáveis são estratégias comprovadas, que ajudam a absorver a água, reduzir enchentes e melhorar o microclima urbano. Mas isso exige revisão dos planos diretores, atualização dos códigos urbanísticos e, sobretudo, capacidade técnica e política dos municípios. Planejar cidades resilientes implica decisão política, prioridade orçamentária e continuidade administrativa. Não se trata apenas de técnica, mas de escolher proteger vidas em vez de seguir reproduzindo um modelo urbano insustentável.

Pergunta 5: Quem são as populações mais afetadas por esses eventos extremos e o que isso revela sobre a estrutura social das cidades brasileiras?

Leila Marques (CAU/BR):
As populações mais afetadas são, historicamente, as mais vulneráveis. São pessoas que vivem em áreas de risco, como encostas, margens de rios e regiões com pouca ou nenhuma infraestrutura urbana. Isso não acontece por acaso, mas como resultado direto de um modelo de cidade que exclui grande parte da população do acesso à terra urbanizada, à moradia adequada e aos serviços públicos. Esse cenário revela uma profunda desigualdade socioespacial e também o que chamamos de racismo ambiental, já que determinados grupos sociais são sistematicamente empurrados para territórios mais inseguros. Quando ocorre um evento extremo, essas populações perdem bens, moradia e, muitas vezes, a própria vida. O desastre, portanto, não é apenas ambiental, é social e político. Existe, inclusive, um instrumento legal pouco conhecido que poderia ajudar a enfrentar esse problema de forma estrutural. É a Lei nº 11.888, de 2008, que garante às famílias de baixa renda o direito à assistência técnica pública e gratuita em arquitetura e engenharia para a construção, reforma ou regularização de suas moradias. Assim como a saúde e a justiça, a arquitetura e a engenharia também são reconhecidas como direitos sociais. Essa lei não tem como objetivo gerar lucro, mas garantir que as pessoas possam morar com segurança, qualidade e dignidade. Quando ela não é aplicada, o que vemos é a reprodução de construções precárias, muitas vezes em áreas inadequadas, o que amplia a vulnerabilidade dessas populações diante das chuvas e de outros eventos extremos.

Pergunta 6: Qual é o papel da arquitetura e do urbanismo na construção de cidades mais seguras diante das mudanças climáticas?

Leila Marques (CAU/BR):

A arquitetura e o urbanismo têm um papel absolutamente central nesse processo porque lidam diretamente com o território, com a forma como ocupamos o solo e com a relação entre o ambiente construído e os sistemas naturais. São áreas que oferecem ferramentas concretas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Isso envolve desde o planejamento territorial, com a definição adequada do uso do solo, até o projeto arquitetônico das edificações, que precisa considerar ventilação, drenagem, insolação e adaptação climática. Profissionais da área têm conhecimento técnico para propor soluções que reduzam riscos e aumentem a resiliência urbana. No entanto, para que isso aconteça, esses profissionais precisam ser efetivamente incorporados aos processos decisórios. Muitas vezes, arquitetos e urbanistas são chamados apenas para executar projetos, quando deveriam participar da formulação das políticas públicas. Valorizar esse conhecimento é fundamental para construir cidades mais seguras, mais justas e mais preparadas para o futuro.

Pergunta 7: A crise climática ainda encontra resistência em parte do debate público. Como isso afeta o planejamento das cidades?

Leila Marques (CAU/BR):
Afeta de forma direta e muito negativa. Negar a crise climática ou tratá-la como algo distante impede que o planejamento urbano incorpore dados, cenários e projeções que já estão disponíveis. As cidades precisam se adaptar a um novo regime climático. Ignorar isso é planejar cidades vulneráveis, que continuarão produzindo tragédias evitáveis. A adaptação climática precisa ser entendida como política pública estruturante, e não como tema acessório.

Pergunta 8: Qual deve ser o papel do poder público diante desse cenário cada vez mais desafiador?

Leila Marques (CAU/BR):
O poder público tem um papel central e intransferível. Cabe ao Estado planejar, regular o uso e a ocupação do solo, investir em infraestrutura urbana e garantir políticas habitacionais que reduzam a exposição das populações aos riscos climáticos. Sem atuação estatal, não há como enfrentar problemas dessa magnitude. Também é responsabilidade do poder público assegurar continuidade das políticas, independentemente de mudanças de governo. Planejamento urbano e adaptação climática exigem visão de longo prazo, algo que não pode ficar refém de ciclos eleitorais. Além disso, é fundamental fortalecer a participação social e a transparência. As populações mais afetadas precisam ser ouvidas e incluídas nos processos decisórios. Sem isso, corre-se o risco de reproduzir soluções tecnicamente corretas, mas socialmente injustas ou ineficazes.

Pergunta 9: Para finalizar, que mensagem principal você deixaria para o debate público sobre cidades, clima e planejamento urbano?

Leila Marques (CAU/BR):
A principal mensagem é que precisamos mudar, com urgência, a forma como pensamos e produzimos as cidades. As mudanças climáticas não são um problema futuro, elas já estão impactando a vida das pessoas agora, especialmente das populações mais vulneráveis.
Planejar cidades mais justas, resilientes e sustentáveis não é uma escolha estética, nem ideológica. É uma necessidade concreta para proteger vidas, reduzir desigualdades e garantir o direito à cidade. Isso exige decisões políticas corajosas, investimento público contínuo e o reconhecimento de que planejamento urbano é uma ferramenta fundamental de justiça social. Ou enfrentamos essas questões de forma estrutural, ou continuaremos lidando com tragédias anunciadas.

Veja o vídeo disponível no perfil do Fala Caio, no Instagram, a seguir:

FONTE/CRÉDITOS: Caio Andrade - Fala Caio